BEM-VINDO

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BEM-VINDO

Irmãs doidas – pelas palavras! E pelas coisas que se inventam com elas. Publicamos nossos primeiros livros: Dias Nublados (Dany Fran), ficção inspirada em fatos reais; O Estranho Contato (Kelly Shimohiro), literatura fantástica. E seguimos com elas… as Palavras, sempre, toda hora, por toda parte! Porque o que vale, mesmo, são as histórias. As nossas, as suas, as do mundo todo.

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De uma pausa para MÃE!

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e vá assistir Mãe!

Isso mesmo, é um convite. Dê uma pausa, vá ao cinema e veja esse filme.

Se Mãe! fosse um ponto turístico, as Irmãs de Palavra diriam que você precisa ir até lá. Você precisa pisar neste lugar por alguns momentos, porque essa experiência fará alguma coisa com você. Talvez te desperte. Vale a pena a viagem. Mas como Mãe! não é um roteiro no mapa, vamos falar do filme.

O nome é uma das palavras mais usadas no mundo – Mãe – e como o diretor e roteirista do longo, Darren Aronofsky, disse em entrevista para o Jovem Nerd (blog brasileiro de humor e notícia), mãe foi o princípio de tudo. Foi a inspiração para toda a criação. A Mãe Natureza: “Não para a sua mãe ou a minha, mas para a nossa mãe. Dar voz para essa mãe que criou toda essa vida. Eu comecei por aí…”. E o resultado são 121 minutos intensos, estrelados por Jennifer Lawence (a mãe), Javier Barden (Ele, o escritor, poeta, o criador), Michele Pfeiffer (a mulher, esposa) e Ed Harris (o homem, médico) – o núcleo principal da trama.

Como técnica narrativa, Aronofksy empresta os olhos da protagonista para o público enxergar a história, como se a câmara estivesse grudada nela. E isso é um jeito de narrar que, no mínimo, nos coloca no centro de tudo o que acontece. Ou seja, cada telespectador é como se assumisse o papel da própria Mãe Natureza e sofresse todas as suas tormentas até atingir sua fúria fatal (que não cede aos apelos do perdão, já que em algumas situações a segunda chance simplesmente não existe). Se bem que no filme, a sugestão é que nosso papel seja o dos intrusos – aqueles que invadem a casa, abusam de sua hospitalidade, roubam seus recursos, depredam sua estrutura e terminam por destruí-la. Não é nada agradável se ver nesse papel – o da humanidade. Mas claro que somos bem diferentes do que o diretor coloca. Como disse alguém ao sair da sala de cinema: “Sujeitinho pretensioso esse roteirista”. A humanidade não faz isso com sua grande casa, a natureza. Nós não fazemos isso, não é mesmo?

Mãe – (Ruim. Ou bom. Inovador. Ou uma repetição de tensões. Um pouco disso. Ou nada disso! ah… Isso aqui não se trata de uma crítica, ok!) agarra a nossa ‘mão’ e nos leva para lugares onde, às vezes, o ‘sol’ não entra. E isto, querendo ou não, mexe com a gente. Porque MÃE é também um lar!

Com um mosaico de metáforas,  Aronofsky (que já colocou no ar filmes como Cisne Negro e Noé), gruda o público na tela com a sua história. Seu jeito de contar. Como é seu hábito, Aronofky traz ao mundo  polêmicas, e com Mãe! não é diferente. O que faz tanta gente sentir vontade de sair da sala de cinema antes do filme acabar. O mesmo desconforto provocado por esta narrativa, também faz parte do público ficar presa à cadeira, tensa até os créditos surgirem na telona.

A camada mais óbvia do filme (e a mais discutida e comentada também) é a alegoria bíblica presente. Deus, o grande criador. A Mãe Natureza. Eva e Adão. Caim e Abel. A Terra sendo criada. Jesus entregue à humanidade pelo pai, que na película, é encarnado por um bebê, que tem literalmente seu sangue bebido e sua carne devorada pela humanidade.

Outra metáfora, dentre tantas, possível é da nossa civilização atual. Se imaginarmos a personagem mãe como uma pessoa comum, você, por exemplo, quantas vezes não se viu na mesma situação dela, tendo sua privacidade invadida? Por desconhecidos, amigos, família, mídias, redes sociais. No filme, Lawerence grita para proteger seu espaço pessoal, manda as pessoas embora, até que explode numa raiva impossível de ser contida. E nós, o que fazemos? E se pensarmos na personagem do médico fã do escritor como alguém real, que por interesse de aceitação, cobiça, idolatrismo ou outra conveniência se deixa levar; quantas vezes em nome de qualquer um desses interesses a gente não permite que nos arranquem ‘pedaços’, partes importantes de quem somos, da nossa história, da nossa própria vontade? O personagem do escritor se encaixa como uma luva no cidadão comum dos dias atuais: egocentrismo, busca de fama a qualquer preço, vender-se por sucesso, esquecendo-se até mesmo de proteger seu próprio filho e relacionamentos em nome desse poder. Sujeitinho pretensioso mesmo esse roteirista, não é que ele faz cesta! Javier Barden representa alguém que usurpa da alegria e vigor alheio para manter sua vida abundante. Existe, no mundo real, gente assim. Toma tudo o que é seu, seu entusiasmo, sua autoestima, sua alegria, seu coração e depois sai ileso e você, sucumbe num canto, totalmente arrasado. São como sangues-sugas emocionais.

Numa altura da trama, a personagem de Michele Pfeiffer diz: “Filhos são assim. Você dá e dá e dá e eles nunca estão satisfeitos”. Quem nunca?

No fim, há um  recomeço. No filme, mais um ciclo amaldiçoado se inicia. Porque o criador não aprendeu nada, não se transformou nem se humanizou. Ainda precisa do coração alheio para criar vida para si mesmo. Mas não precisa ser sempre assim. Você, por exemplo, pode fazer diferente. Não pode?

Pensar sobre essas coisas pode mesmo incomodar. Mesmo assim, fazemos o convite uma outra vez: Dê uma pausa e vá assistir Mãe! A viagem vale a pena.

  • texto: Irmãs de Palavra

 

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de uma pausa

DÊ UMA PAUSA. A criança quer brincar.

de uma pausa

A criança quer brincar.

A criança não morreu. Ela só encolheu.

No fundo psíquico de qualquer personagem, ela está lá. E claro, ela sempre dá um jeito de aparecer. Se você prestar atenção, na real, isso também acontece com você.

A criança que sofre, que não encontra no mundo um jeito de superar os abusos sofridos, ou o descaso e a falta de amor vivenciados na infância, faz barulho na cabeça do seu ‘eu’ adulto. Pode até desabrochar como um psicopata cruel. No eletrizante triller de Jo Nesbo, O boneco de neve, um psicopata é autor de uma série de assassinatos, conectados por um fio, um tema que o assassino mantêm em sua mente desde a infância. É a criança dele aparecendo e querendo vingança.

A criança mimada, aquela que só ouve sim, exige cada vez mais das pessoas à sua volta. Na saga Harry Potter, esta criança está representada pelo primo trouxa de Harry, Duda Dursley.  A criança que  ele foi, nunca sai de cena. Mesmo quando se torna um adolescente, Duda desponta como o garotinho inconsequente que nunca deixou de ser.

A criança rebelde e contestadora que Marjane Satrapi foi, não abandona a sua vida adulta. Em Persépolis, autobiografia em quadrinhos da autora, Marjane estampa sua infância, adolescência e início da vida adulta. E a criança dela está lá, nos principais momentos. Na adolescência, quando a pressão social e política aumentava, Marjori alcançava sua criança interna e dava um jeito na situação opressora. Na vida adulta, quando precisou de coragem para pedir o divórcio, a Marjane criança (verdadeira e corajosa) dá à Marjane adulta  a força necessária para enfrentar a situação.

Na série Greys Anatomy, a personagem protagonista que dá nome ao título da trama se vê atormentada pelos fantasmas da infância. Ao temor do abandono. E segue repetindo na vida adulta, as reações inadequadas que aprendeu na primeira fase da vida. É a criança interior pedindo outra chance.

A criança sempre está lá. Com separações, encontros, realizações ou decepções. Quando a gente cresce, ela só encolhe. E quando vê uma fresta, volta à vida. Se puder ser espontânea, divertida, corajosa, destemida, ela será. Se precisar curar seus medos, inseguranças, traumas, ela agirá até ser acolhida, restaurada e curada. Amir e Hassan, personagens amigos no romance O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, denunciam como a trajetória na infância acompanha nosso destino na vida adulta. E pode assombrar ou clarear nossas escolhas pra sempre.

Como na ficção, na realidade as histórias estão recheadas de gente ‘grandinha’ nutrida pela criança que foi e que nunca deixou de alimentar seus passos. Por quê deixar de dar atenção à ela? Diferente de virar um Peter Pan, às vezes é só dar uma pausa e deixar a ‘criança’ brincar.

texto: Irmãs de Palavra

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Dê uma pausa – tome coragem

de uma pausa

e TOME CORAGEM!

 

Tem personagem que nos compadece com tanto sofrimento. Coitado! Tem aquele que nos seduz com um magnetismo tão florescente, que chega a ser real. Existe o que nos irrita com todas suas lições de moral. Não, nada pior do que uma criatura perfeita até mesmo na ficção. Há tipos que nos botam medo, nos fazem imaginar terrores no meio da noite. E o que falar dos que nos fazem querer cair de paixão, só para viver a mesma emoção que lemos nas páginas?

Todos eles têm uma chave em comum. E o nome dessa chave é coragem. É ela que abre a porta de um mundo novo para o personagem. A partir desse ponto, o personagem se transforma. Literalmente  acontece, porque abandona o sofá da mesmice sem fim. Mesmo que doa, mesmo que receie, mesmo que dê muitas voltas até chegar ao ponto principal, o personagem avança tomado pela coragem que cresce dentro de si. Cumpre suas tarefas, seus desejos no mundo. E sua história se expande.

O oposto disso, é o personagem que empalidece, perde um pouco de viço a cada capítulo. Não tem coragem de arriscar, de sair do lugar, finge não ver as verdades, não troca de casa, não vence seus medos, repete-se, definha, encolhe-se todo em letras cada vez mais miúdas. Sem ponto de virada nessa história.

Cada livro tem seu tema principal e outros que o atravessam. Mas em todos eles, a coragem ou a sua falta costura a trama. Arremata os protagonistas. Talvez ela seja o amuleto mágico que tanto buscamos.

Anahita, protagonista do romance ‘A Rosa da Meia-Noite’, de Lucinda Riley (sim!! vamos falar deste livro, que lemos recentemente para o clube de leitura Amigos de Palavra de Maringá, mais uma vez porque ele é um fôlego profundo), é uma dessas personagens que nos mantêm acesos. Uma indiana que nos presenteia com muitas coisas, ou melhor, sentimentos. Dentre suas características, a coragem é a mais marcante. Precisa de muita coragem não apenas para correr atrás do que se quer, mas para esperar sem perder a fé quando se está no escuro. Para acreditar na vida com a certidão da morte em mãos. E essa personagem não desiste, ela não se quebra toda frente aos inúmeros desafios que acontecem. Um fio de coragem – consistente e insistente – a mantêm naturalmente progredindo.

Uma réstia de coragem mantêm vítimas de tragédias como de Las Vegas (EUA) sobrevivendo e alimentando novas esperanças. A realidade e a literatura estão cheias de ‘Anahitas’ que nos tornam ‘Marias’, ‘Joanas’, ‘Jaoquinas’ mais agarradas a nossa vivacidade, nossa vontade de fazer e refazer, ainda que com receios, nosso próprio destino. E o que é mesmo ter coragem? Vire a próxima página, por favor. Dê uma pausa e tome coragem.

* texto Irmãs de Palavra

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harry potter e as irmãs de palavra

Dê uma pausa, afinal por que precisamos de fantasia?

de uma pausaAfinal, por que precisamos de fantasia?

“Estou sonhando ou isso tudo é verdade?” – pergunta Harry Potter.

“Se está na sua cabeça, por que não seria real?!”

Neste diálogo entre Harry e Dumbledore, em Relíquias da Morte – parte 2, J. K. Rolling abre um caminho para destinos mais ‘fabulosos’. Mas que destinos seriam esses? Bem, por falar neles, Amelie Poulain já tentou nos dizer, com silêncio e pequenos gestos, sobre os prazeres fantásticos da imaginação no seu cotidiano. Ah… e em se tratando de imaginar, visionários também já nos deram pistas dos riscos de sonhar. O que dizer de uma nova diversão que começou tudo com um rato e mudou o entretenimento do mundo inteiro? Goste ou não, queira ou não, desde a criação de Mickey Mouse (1928), o ilustrador – editor e empresário Walt Disney transformou a animação infantil e aguçou a magia dos já bem crescidinhos, inspirando rotinas mais divertidas. Não apenas com o frenesi dos parques da Disney Word, mas também com o encantamento da magia que seu próprio riso pode provocar. E espalhar.

Sim, as experiências movem nossa história. E as Irmãs de Palavra deram uma pausa pela terra da fantasia. Pode ser fácil ficar contente quando se perambula pelo colorido ‘perfeito’ da Disney. Para quem é fã de Harry Potter, como nós duas, é uma delícia curtir os simuladores dos parques da Universal, inspirados no universo dos bruxos criados por J. K. Rowlling (que mente criativa tem essa autora!). Ver o show de fogos e luzes no famoso castelo da Cinderela é meio mágico, sim. Porque o que fica não apenas na sua cabeça, mas em seu coração, é capaz de tornar os seus passos mais fantásticos.

E fantasia faz isso. Sua mente cria um mundo que existe apenas na sua imaginação. E a fantasia vira criatividade quando você inventa algo transformador da realidade. Um abridor de latas. O estudo das partículas quânticas. Uma receita “fantastic”. O computador. Espaçonaves. A história de um romance. Prateleiras eficientes. O elevador. Uma semente resistente a doenças. Pontes. O colorido diário. Precisa fantasiar para transpor a realidade conhecida. Precisa fantasiar para extrapolar!

É claro que existe o lado sombrio da fantasia. Pense em Bentinho, famoso personagem de Machado de Assis do clássico Dom Casmurro (1900). Até hoje ninguém sabe se Capitu traiu ou não traiu. Talvez fosse só uma fantasia dele. Que destruiu o amor, destruiu a felicidade e acabou com um mundo de possibilidades.

Fantasia é útil, please! Mas pode ser o veneno amargo que sua mente injeta no mundo ao seu redor. Paranoia, obsessão, psicoses, pânico, medos, prostração, neuroses, complexos, dramas cotidianos infundados, projeções, delírios e perda de tempo imaginando o que o outro vai achar, o que o outro está fazendo.

Basta imaginar e sua mente começa a criar. As Irmãs de Palavra escrevem. É – principalmente – o que nós fazemos com nossa fantasia. E você, faz o quê?

  • texto Irmãs de Palavra

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Dê uma pausa para Haruki Murakami

de uma pausa

para Haruki Murakami

“Eu não tinha a intenção de ser escritor, não costumava escrever e, certo dia, de repente, comecei o primeiro romance (ou algo parecido com isso)”. Palavras de um romancista que, além de histórias de ficção, nos oferece um livro que nutre, despretensiosa e claramente, quem se interessa pela escrita. Haruki Murakami em ‘Romancista como Vocação’ (2015), relata um pouco de sua trajetória como escritor e nos empresta seus olhos e desejos sobre esse ofício. Para ler Murakami, abandone todas as ideias preconcebidas de como um romance tem que ser. Romancista como Vocação vai desconstruir você.

Escrever exige, nas palavras do autor, velocidade baixa e  marcha lenta. Um trabalho cheio de rodeios e que demanda mais do que tempo, você precisa sentir a força concreta das palavras. Elas não podem ser apenas corretas em gramática e técnica, elas precisam comunicar emoção. Emoção verdadeira e genuína. Marcha lenta para essa escalada de escrever, transcrever e reescrever, traduzindo seu mundo submerso para o leitor.

Logo de cara, o autor aborda um ponto controverso: qualquer um pode escrever um romance.  E por que não? Se tiver disposição para descer até as trevas do interior da sua mente, escrever o que sente, explorar novos e desconhecidos territórios, o sujeito pode se meter a escrever um romance. Por que diabos alguém que deseja, não pode criar uma história? Devemos repensar então a vocação. Ou melhor, dar à ela o status de democracia. Todos têm direito.

À medida que Murakami foi se dedicando aos seus romances – primeiro conciliando com outros trabalhos, escrevendo na mesa da cozinha, no hotel, onde quer que estivesse; começou a seguir um ritmo próprio e acreditar ferozmente no vigor (livre) da língua.  Quanto às críticas sobre suas obras, diz repousar no inevitável. “Então, vou escrever livremente o que eu sentir, o que vier à minha cabeça abandonando ideias preconcebidas de que romance tem que ser assim, de que literatura tem que ser assim”. Oferecer ao leitor o melhor que suas habilidades lhe permitem e aceitar as críticas em silêncio. Elas virão de qualquer maneira. O compromisso do escritor não é com os críticos, é com o leitor.

Se o escritor tem alguma obrigação, essa é de CONTINUAR escrevendo obras com cada vez mais qualidade e originalidade. Isso exige muita leitura (óbvio). Mas também, muita vida. Hábitos de observar os detalhes. De não tirar conclusões rápidas. De não julgar.  Somente debruçar-se ao material que o cotidiano lhe oferece. Mais que qualquer técnica, essa observação cuidadosa e não taxativa, é o plasma da escrita.

Já a imaginação – as gavetas que abrimos da nossa mente – essas devem ser usadas com abuso e regularidade. Surge a ideia. E a história progride quando personagens de diferentes tipos agem de formas variadas, pegam na mão do autor e o guia para lugares inesperados, seguindo, colidindo uns com os outros. Verossímeis, mas não previsíveis. Assim a narrativa se amplia de forma ‘natural’.

“Quando o escritor cria uma obra, em certo sentido, uma parte dele também está sendo simultaneamente criada.”

Sabiamente, Haruki insiste em dizer “Estou falando apenas do meu caso”. Talvez, o que ele queira dizer com isso é que cada escritor terá que debater-se em si mesmo até conseguir encontrar seu jeito genuíno de narrar. Se fôssemos mais pretensiosos, diríamos que na vida, cada pessoa também teria que debater-se em si mesmo até conseguir encontrar seu jeito genuíno de viver. Mas isso já é outra história. Por enquanto, ainda impera os manuais de como se escrever um livro perfeito e empolgante. Ou como você deve agir (onde ir, o que comprar, o que pensar) para ter uma vida “perfeita e empolgante!”

Ainda bem que existem alguns ‘Harukis’ por aí, ainda bem…

texto Irmãs de Palavra

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harry potter e as irmãs de palavra

Dê uma pausa para o tic-tac-tic-tac-tic-tac

de uma pausa

para o tic-tac-tic-tac-tic-tac

O tempo parou. A história acabou.

A sua. A nossa. A dos livros. A do mundo todo.

O tempo é uma navalha afiada que decepa as mentes desavisadas. Deadline. Perdeu o prazo. Acabou a festa. Passou o ônibus. O supermercado fechou. A validade acabou. O queijo mofou. O filho já apresentou quando você chegou. O soro não foi aplicado a tempo e o veneno se espalhou. Um segundo, e o prazo de inscrição se esgotou. Se em 24 horas ela não reagir, todo esforço terá sido em vão e o pior pode acontecer.

O nome disso é ticking clock – o tic-tac que atravessa as tramas, introduzindo tensão nas histórias. A vida tem time pra acontecer. Você se vê ansioso para pagar a multa, já que o prazo vence hoje. Entregar o trabalho amanhã te faz enforcar outros compromissos até lá. Devolver o livro, mas antes devorar o último capítulo. Renovar o passaporte, na próxima semana a taxa terá nova tarifa, mais caro que o valor da atual. Buscar o exame quase seis horas e o semáforo fechar em toda esquina. Chegar até as cinco horas no posto de saúde, seu filho portador de diabetes precisa de insulina, para HOJE!

Como técnica narrativa, o ticking clock é o botão que liga – de imediato – o leitor à trama.  Produz adrenalina, não deixa a ansiedade escapar nem a história ficar frouxa. Ficamos doidos para saber se o herói vai conseguir pegar o trem a tempo de salvar a garota das mãos sórdidas da própria família. Se com as badaladas da meia-noite a princesa vai chegar a tempo da carruagem não virar abóbora. Se o inspetor vai descobrir o crime antes de mais um boneco de neve aparecer e outra vítima a gente conhecer. Se a heroína vai conseguir atravessar a ponte, faltam poucos segundos para a coisa toda desabar. Ou se o coração que salvará seu filho conseguirá cruzar o Atlântico em menos de 10 horas.

No filme 72 horas (EUA, 2010), o personagem estrelado por Russel Crowe tem as exatas 72 horas para executar o plano de fuga para tirar a esposa da prisão, condenada há cumprir pena por mais vinte anos. Caso não consigam, ambos ficarão presos. Ou serão mortos. Você senta para assistir a esse filme e não tem sossego até os minutos finais. Suas células todas ficam agitadas: você precisa saber o que vai acontecer. Eles vão conseguir fugir do país?

A obra clássica de terror O Bebê de Rosemary (Iran Levin, 1969), costura a trama de horror psicológico com  os nove meses da gravidez de Rosemary. O tempo todo você sabe do limite da história e conforme os nove meses vão chegando ao fim, a ansiedade e agonia do leitor crescem em disparada.Você TEM que saber como as coisas vão acontecer. Por pior que seja o desfecho.

Vai sempre existir um limite, um fim (figurativo ou não) a ser alcançado em um determinado prazo. Que você vai aguardar, querer alcançar, às vezes, desesperadamente. O que dizer da saga de Harry Potter, onde os três amigos, que nós amamos, precisam crescer desvendando enigmas contra o tempo para destruir horcruxes e matar Voldemort, antes que eles morram? É um embate frenético. Uma adrenalina que gruda você em cada capítulo. Cada palavra.

E quando o tempo se encerra e a última página é lida, o leitor ainda carrega a tensão da história por alguns momentos, ou horas, talvez até por dias. É o poder de Cronos, deus temerário, escravizando  todos nós às suas leis e caprichos.

Se você não tem tempo, você não tem história. Se não tem história, não tem vida nenhuma.

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Texto Irmãs de Palavra

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