O FIM

laketwo Tudo aconteceu de uma só vez, feito um furacão. Eu estava na casa velha da minha avó velha. Estava no andar de cima, encostada em uma janela grande, de madeira. Observava, desatenta, o jardim lá de baixo, meio bagunçado. O céu estava escuro e de todas as estrelas incidia uma luz azulada. Ouvia minha avó fazer barulho na cozinha lá embaixo.
Um movimento no céu chamou a minha atenção, distraidamente. Achei que fosse um avião, atrapalhando o cenário azulado. Então, a “coisa” se aproximou mais, chegando bem perto… E eu pude ver tudo!
Uma ave gigante vinha na minha direção. Ela batia suas asas com tamanha força, que eu sentia as tábuas de madeira sob meus pés tremerem. Eu não consegui sair do lugar, hipnotizada pela criatura horrenda. Só quando ela estava bem próxima, a ponto de me atacar, é que consegui vê-la de verdade. Era uma ave gigante, monstruosa e anormal. Parecia ser de metal e mesmo assim… Viva! Ela batia suas asas aterrorizantes, tomando tudo com um barulho ensurdecedor.
Tapei meus ouvidos com as mãos, o barulho ficou ainda pior. Ouvi um grito apavorado, corri para o andar de baixo. A minha avó!
Desci as escadas aos tropeços. A cozinha estava vazia, com a porta aberta. Um arrepio invadiu todo o meu corpo. Eu sabia que era o fim.

Só conseguia pensar que minha vida iria acabar destruída por uma ave anormal, um monstro. Mesmo assim, disparei para o jardim. Eu tinha que encontrar a minha avó.
Contornei a casa até os fundos. Minha avó estava lá, parada. A criatura horripilante estava com ela. Tentei não olhar para a maldita ave, mas ela ocupava quase todo jardim. A figura frágil da minha avó parecia um graveto perto do monstro gigante.
Falei em sussurros:
– Vovó, vovó…
Devagar, ela, que estava de costas para mim, se virou. Os olhos dela estavam vidrados. Recuei alguns passos.
– Judi… – a voz dela atingiu um timbre impossível, ecoando por todo o espaço. – Ela veio buscar você.
Dizendo isso, ela se voltou para a ave. Então, a sinistra criatura abriu suas asas negras de metal e toda a imensidão da envergadura de suas asas me encheu de temor.
Mas ao contrário do que eu podia supor, me vi avançando em sua direção. Minha avó continuava na mesma posição.
A “coisa” assombrosa bateu as asas gigantes e mesmo tremendo, fui até ela.
Montei a ave, sem nenhuma dificuldade. Acariciei o aço gelado de suas asas e ela arremeteu um grunhido temeroso. Seus olhos brilharam dourados, produzindo uma luz absurda em todo o jardim. E então voamos. Voamos tão alto e tão rápido, que qualquer deslize seria meu fim. Não me importei, parecia ser o meu melhor momento.
Avançamos ainda mais e o céu era cada vez mais escuro e profundo. Enquanto o resto da vida lá embaixo, desaparecia para sempre.
Em algum momento, o céu negro tornou-se rubro. Meus olhos, ardendo pelo calor, me mostraram o mundo que existia ali, no mais alto de todos os céus.
Árvores fantásticas e de um tamanho irreal flutuavam, deixando raízes grossas e infinitas agirem como garras mortais.
Milhares de outras aves gigantes voavam entre as árvores. Algumas eram derrubadas pelas raízes violentas. O barulho daquelas criaturas era demoníaco e eu quase não pude agüentar.
Subimos ao ponto mais alto da maior de todas as árvores e então, a horrenda criatura me jogou para a morte.
Não tive medo, fechei os olhos e deixei que tudo acontecesse. Mas eu parei de cair e não morri. Os grunhidos tornaram-se um grande e terrível alvoroço e eu logo entendi. Estava em um ninho das trevas.
Foi quando se deu o início da minha breve luta pela sobrevivência. Corri mais que pude, tropeçando e dilacerando minha pele. Eu precisava continuar e lutar. Não queria morrer. Não ali, naquele berço medonho.
Consegui me esconder entre cascas de ovos repugnantes. Ouvia o grunhido absurdo dos filhotes famintos, aumentando ainda mais meu martírio. Tropecei e caí. Só então, vi o cenário completo daquele mundo infernal. Entre os destroços dos ovos, jaziam milhares de corpos humanos. Eu não pude mais agüentar e gritei, chamando a atenção dos filhotes endemoniados.
Era o meu fim.
– Judi, desça logo! A sopa já está pronta! – a voz da minha avó me acorda do devaneio. Estava novamente tendo um dos meus delírios fantásticos. Minha mente sempre me leva para lugares sombrios.
Sorrio. Não estou em um ninho pavoroso. Estou na casa velha da minha avó velha. E o que me espera, não são aves monstruosas de metal, mas uma deliciosa sopa da vovó.
Olho, mais uma vez para a luz azulada das estrelas. E então percebo um objeto se movendo. A “coisa” se aproxima mais, chegando bem perto… E eu posso ver tudo! Uma ave gigante vem em minha direção…

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".