UM SONHO DE CASA

casa-mal-assombrada-logo Escuridão e um silêncio quase mortal. De repente o estrondo de passos atropelados. Velozes. Quando me dei conta corríamos cegos. Desesperados. Sem rumo. Nenhuma bússola. Quatro corações. Pulsantes. Alucinados e perdidos. Juntos, cortávamos o ar gélido daquela estrada escura como um foguete rompe o céu. Ainda assim podia sentir o ardor deles se aproximando. Até que uma faísca agarrou uma ponta dos meus cabelos.
– Estão nos alcançando!
Gritou meu menino desnorteado. Enquanto minha menina, com seus dedinhos ágeis, arrancou com um único puxão o mal pela raiz. Eu não senti nada além do pavor de saber que o limite já era quase inexistente.
Quando as sombras deles conseguiram, finalmente, cobrir as nossas um arrepio chicoteou com força minha pele. Em um ímpeto de inusitada coragem consegui olhar para trás e ver as suas caras. Asquerosas. Exalavam um odor de enxofre a cada gargalhada maquiavélica. Eu nunca mais esqueceria aquelas caras. Com o queixo tremendo virei para frente e a encontrei diante de nós. Imponente!
– Que casa é está?
Mesmo sem resposta minhas células borbulharam. Não hesitei. Lancei os quatro corações para dentro e bati o portão de ferro na cara das sombras. Gemidos estridentes trincaram uma das janelas. Grunhidos horripilantes estouraram outra. Eu sabia. Era apenas um obstáculo. Eles continuariam em nossa busca. Por isso não paramos de correr. Atravessamos o jardim. Pulamos os degraus de uma só vez. E avançamos pela porta da frente.
Quase sem fôlego, suspirei quando percebi que não tinha mais ardor. Arrebentei meu último fio de coragem e olhei para trás. Um susto!
Nada, além da porta de madeira fechada. Parei. Os músculos exaustos quase não acreditavam que ainda existia a possibilidade de salvação. Na verdade eu continuava com medo. Na sala um piano aberto com uma partitura suja, um divã vermelho e um enorme abajur aceso deixavam o ambiente menos hostil. Em um dos cantos uma escadaria nos fez olhar para cima.
Subimos lentamente os degraus que rangiam sob o peso de nossos pés. À direita um quarto de criança. Grande. Colorido. Cheiro de brigadeiro. Os pequenos quase sorriram. Não fosse a memória da recente assombrosa fuga. Sem pensar ofereci brinquedos. Ainda assustados deixaram escapar tímidos sorrisos. E foi aí que coisas incríveis começaram a acontecer. A cada sorriso surgia um novo brinquedo. Bolas. Cordas. Bonecas. Carrinhos. Bicicletas. Até que no cômodo não cabia mais ninguém. Ainda assim, quase sufocados, eles não paravam de rir. Como se o pavor que há pouco tomou conta de cada célula nunca tivesse existido.
Puxamos ar e tudo, como mágica, foi para seu devido lugar. E assim aconteceu tantas vezes até meus pequenos cansarem de brincar. Não sei como nem quantas vezes isso aconteceu. Olhei para o relógio e o ponteiro não tinha andado um minuto. Incrédula, bati no visor. Uma hora. Um segundo. Acho que nem ele sabia pra onde seguir.
– Vamos?
Antes mesmo de digerir o convite minha mão acolhida foi conduzida e me deixei levar. Pelo menos desta vez. À esquerda outro quarto. Do casal. Branco. Apenas uma cama. Fofa. Edredom de algodão. Macio. Gostei. Uma gigantesca vidraça mostrava um campo florido coberto pela neve. Um beijo. Rápido. E o gelo derreteu no mesmo instante em que surgiu uma cidade iluminada bem diante de nós, abrindo mil possibilidades.
As coisas mudavam com uma rapidez que me deixava atordoada. As crianças divertiam-se como se estivessem em um episódio da Disney, onde o impossível é docemente incluído no roteiro. Elas olhavam tudo aquilo com tanta naturalidade que fazia eu me sentir ainda mais estranha.
Novas rugas assim que todas as luzes se apagam para, então, surgir uma floresta nebulosa. Fechada. Pulo pra trás assustada com o voo repentino de uma coruja. A asa da rapina bate no vidro quando ela engole um rato de uma só vez e em seguida vomita partes indigestas. Seus olhos arregalados intimidam os meus. Fêmeas. Alguma sintonia me alivia. Pisco. E o que vejo não é mais nada do que um portão.
Você aperta minha mão e mesmo protegida tenciono meus nervos. Eles relaxam apenas quando percebo que não tem ninguém lá fora. Pelo menos não que eu possa ver. Confusa me jogo na cama. E agora o convite é meu.
– Vem?
Nos afundamos nas almofadas. Macias. Seus braços envolvem meu corpo que se encaixa no seu. Alguma coisa dura me incomoda. Um livro embaixo do travesseiro. Tem lugar mais precioso, íntimo e exclusivo? Quando o pego nas mãos pilhas de livros surgem por todos os cantos do quarto. A estranheza de toda aquela situação estava começando a ficar familiar. Curiosa, abro o livro com sete dragões na capa. Com o toque dos meus frágeis dedos as letras se movem e formam novas frases. Leio. “Ilusão. Verdade. Magia. No fim não acaba sendo tudo a mesma coisa?”. Os pensamentos também se remexem em minha mente atrapalhada como se tivessem vida nova dada pelas minhas escolhas. “Então era aquela casa com portões pontiagudos, guardados por estátuas demoníacas a nossa proteção angelical?”
Olhei novamente lá fora e o ambiente continuava árido. Ninguém entrava. Ninguém saia. Mas ali dentro tudo se movia e mudava em um piscar de olhos. No lugar da parede ocre de repente uma imensa árvore. Sem folhas. Sem frutos. Na cozinha sob a mesa uma toalha xadrez. Branca e vermelha. Senti sede. E um chá quente de maçã em cima da toalha, branca e vermelha. Maçã? Recusei. Uma jarra de água apareceu onde antes tinha o bule. Tomei tudo em três goles. A garganta continuou seca. Voltamos os quatro para a sala. Grande. De madeira. Vazia. Não tinha mais mobília.
Foi aí que ouvimos batidas na porta. Sete. Cadenciadas. Uma atrás da outra. Nos olhamos em silêncio. Apavorados. Outro arrepio chicoteou minha pele que desta vez rasgou em dois pedaços. E se fossem eles?
Abrimos. Nossos olhos. Sonolentos.
– Você não vai atender?
Batidas sacudiam a porta trancada do apartamento.
Sentei-me com dificuldade, como se estivesse arrastando quase uma tonelada para conseguir curvar meu esqueleto na cama. Estreita. Dura. O lençol azul marinho tinha manchas ainda mais escuras. Toquei o tecido úmido e senti o odor de suor. Ele vinha de mim. Percebi que transpirava como quem tinha acabado de disputar uma maratona. Levantei. Tropecei. Escorreguei em uma folha de papel. Uma partitura de piano. Eu nunca toquei piano.
Acuada olhei para sacada. Pela imensa vidraça descortinava uma realidade turva e cinzenta. Como nunca tinha reparado naquela casa de portões de ferro em frente a minha?
Parei de ouvir as batidas na porta. E antes que me virasse senti o ardor se aproximando, ao mesmo tempo em que reconheci no vidro da janela da casa em frente a minha o reflexo daquelas caras que eu nunca mais esqueceria.

Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.