OS IRMÃOS DESAFORTUNADOS (por Kelly Shimohiro)

joão e maria II

 

Os dois foram, enfim, abandonados no espaço mais escuro daquele mundo. Lembrava o interior sombrio de uma floresta antiga, dessas que não existem mais nos dias atuais.

Eles se olharam calados. Sabiam que não eram mais desejados. Esse não era o problema. Afinal, já estiveram ali, naquela mesma situação, milhares de outras vezes.

O problema era encontrar a casa da bruxa. Essa etapa estava se complicando muito, tornando-se perigosa e cansativa. Em uma dessas ocasiões, a casa da megera ficava entre dois mundos e tiveram que percorrer tantos portais para descobri-la, sem contar os obstáculos mortais que surgiam a todo instante. Agora não seria diferente, imaginaram. Seus rostos estavam cansados.

Nem um segundo se passou e foram transportados para um cenário alucinante. Estavam no alto da torre de um arranha céu. Olharam para baixo em estado de euforia. Os luminosos da cidade piscavam enloquentes. Um mundo se agitava sob os pés deles. Nunca tinham estado ali. Gostaram. Não há nada tão excitante quanto uma boa novidade.

Vasculharam os bolsos procurando pistas. Não encontraram coisa alguma. Isto também era bom, teriam que descobrir sozinhos. E a excitação deles cresceu, atingindo seus olhos, que brilharam como nunca.

Desceram em rapel. Sempre encontravam cordas à disposição. Foi divertido. O medo de cair e acabar deixava tudo mais vivo.

No chão, ele segurou a mão dela. Eram irmãos e essa cumplicidade pegava bem todas as vezes. Sem exceção.

Caminharam timidamente, reconhecendo o cenário. Os encapuzados começaram a surgir. Eles sabiam que eram obstáculos para tornar tudo mais empolgante. Adrenalina. Esse era o objetivo.

Correram em disparada. Golpearam. Desta vez o condutor realmente parecia ser dotado de algum talento para lutas. Não estavam à mercê de um cérebro sem foco. Sorriram um para o outro. Estavam com sorte.

Encontrar a casa da bruxa não foi um enigma tão difícil como esperavam. O que significa que o clímax seria a sua execução. Esfregaram as mãos ao mesmo tempo, estavam se preparando. Essa era a fase que mais gostavam. Mesmo repetindo aquilo há tanto tempo, não se cansavam. Destruir a fada do mal.

Ficaram estáticos, em pausa.

Théo, o menino que segurava o controle animado, havia apertado o “pause”. Tinham tocado a campainha. Sozinho em casa, ele teve que atender.

joão e maria I

 

Abriu um largo sorriso ao ver a figura do carteiro entregando-lhe uma encomenda. Olhou rapidamente para o destinatário. Seu nome.

Bateu a porta sem dizer obrigado. Estava desesperado para abrir o pacote.

Deu um grito de alegria quando pegou a capinha do jogo em suas mãos. João e Maria no Mundo dos Zumbis. 3D. Isso realmente deveria ser demais!

Virou a capinha e leu a sinopse.

“João e Maria se encontram sozinhos em um mundo controlado pelos zumbis. Eles precisam vencer as terríveis forças que dominaram a Terra. A sobrevivência humana depende desses irmãos. Será que você consegue?”

Théo abriu o CD feito um louco. Sem pestanejar, retirou o CD antigo do vídeo game, colocando o novo.

João e Maria entraram na escuridão sem entender a nova interrupção. Tinham ficado sem completar as cinco fases do game muitas outras vezes. Nunca gostavam disso. Era como se todos os esforços fossem em vão. Sem outra alternativa, recolheram-se para as sombras.

Théo, movido pela novidade, iniciou o novo jogo. Sorriu. O cenário era magnífico. João e Maria tinham um estilo androide e a Terra realmente parecia destruída e infestada por forças sinistras.

Desde pequeno, ele era fascinado por esse conto. E quando lançaram a versão eletrônica para o Play 3, ele comprou imediatamente.

Na infância se encantava pela força e pela coragem dos dois irmãos. Agora, nos jogos ficava hipnotizado pelos mesmos irmãos, tão destemidos nas telas quanto em sua imaginação. Aqueles dois, abandonados e sem sorte, seguiam corajosos, buscando pelo dia em que teriam a paz de um lar.

O problema é que nos games isto estava se tornando cada vez mais difícil…

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".