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Um dia na morte de Horácio Marana (por Jary Mércio)

conto Jary

Horácio Marana acordou naquela manhã profundamente desinteressado sobre como iria morrer naquele dia. Em tempos passados, ainda na infância, mas quando começava a compreender as coisas, era tudo diferente. Marana saltava da cama já curioso sobre como seria sua morte do dia. Morreria de um mal súbito como na terça-feira? Seria mais uma vez atropelado por um caminhão, cairia do alto de uma árvore, um raio o atingiria em meio a um piquenique?

Piquenique? Não, nem era domingo. Mas aquele avião que projetava sua sombra sobre uma nuvem baixa bem que poderia cair sobre sua cabeça. Não importa, o fato é que o pequeno Marana nunca chegava ao fim da tarde, no máximo ao começo da noite, sem ser colhido pela mão da Morte.
Depois, na adolescência, vieram outros modos de morrer. Quando sua primeira namoradinha lhe deu o fora, o garoto morreu literalmente de amor. Ou de tristeza, não se lembra bem. Também, tantas mortes, como se lembrar de todas? Mas a mãe, enquanto viva, anotava tudo num caderninho. E essa morte de amor ou de tristeza, ela anotou assim: meu menino chorou, chorou, chorou tanto que desidratou e olha que eu bem que fiz ele beber uns três litros de água com açúcar e um tiquinho de sal em cada copo.
Na verdade, foram três mortes de amor ou tristeza em três dias seguidos, está ali no caderninho da mãe. No quarto dia, Horácio Marana foi encontrado morto num terreno baldio, em um bairro distante do seu. Teria sido vítima de um maníaco sexual, fora uma morte brutal, mas isso não está no caderninho da mãe, que, por sinal, acabava ali, na palavra baldio, de terreno baldio. A pobre mulher morreu dias depois, jogou-se da ponte do São Domingos, que atravessava a cidade. Dizem que se atirou às águas turvas por pura tristeza, desgosto, pela brutalidade com que se deu aquela morte recente do filho. Ou talvez, pelo fato de o menino, já grandinho, não ter esboçado sinal de defesa (palavras do delegado).

Mas naquela semana, antes de a mãe morrer, Marana já havia morrido de uma tuberculose mal curada que retornou a galope, de hidrofobia (interpusera-se entre sua cadelinha e um cão raivoso que o mordera no pescoço, próximo da jugular, e fora submetido a um tratamento à base de injeções com droga vencida), e de um mergulho do alto da torre do Santuário de Nossa Senhora Aparecida (um prenúncio da morte da mãe?). Por essa época, Marana já não tinha mais interesse em saber do que morreria, mas restava uma sombra de ansiedade, um vago temor. Se alguém o pegava imerso em pensamentos e perguntava o que era, dizia:

– Não sei, uma preocupação.

Adulto, morando no norte do Paraná, o fiscal da prefeitura Horário Marana morrera de tudo: de tiro, de facada, de dengue, overdose, câncer na traqueia, cirrose, acidente de carro, afogado no rio Ivaí (duas vezes), no Paranapanema (três), enfim, de tudo quanto é morte morrida ou matada. Ali pelos 40 anos, Marana era um homem triste. Tinha uma bela mulher, morena, de olhos castanhos e melena negra ondulada, muito amorosa. Dois filhos inteligentes, bonitos, carinhosos, um menino e uma menina de 12 e 11 anos, respectivamente. Uma sogra que não dava palpites na vida do casal nem mimava desmedidamente os netos. O pai reaparecera após uma longa viagem planetária, cheio de histórias para contar. Ele continuava morrendo regularmente a cada dia, a família aprendera a amá-lo assim e até a se orgulhar desse seu currículo fatídico. Mas Horácio Marana, visivelmente, era um homem triste. Naquela noite, após um dia em que finara nem ele bem se lembra do quê, Marana, pela primeira vez, não fez as orações para dormir. Apenas disse à mulher, na cama, naquela noite em que não fizeram amor e ele não fez o rito de fechar o corpo:
– Amanhã não quero morrer. Ou eu morro esta noite, dormindo, ou não morro mais.
– O que é isso, Horácio? – sussurrou a mulher.
– É o que estou dizendo.
– Está bom, então durma.
De manhã, Horácio Marana acordou profundamente desinteressado sobre como iria morrer naquele dia. “Como pude acreditar que poderia morrer dormindo?”, disse de si para si, desdenhando do próprio destino, envergonhando-se da fanfarronice da noite, ao se despedir da mulher antes de mergulhar no sono. Tamanha foi a vergonha que se encolheu mais no leito, cobriu o rosto com o lençol e assim ficou por 15 minutos ou menos de meia hora. Mas depois, o silêncio da casa, como se fosse um domingo e a mulher tivesse ido à missa com as crianças – mas não era domingo –  aos poucos aquele imenso silêncio foi chamando a atenção de Marana e ele, com um pavor até então jamais vivido, saltou da cama.

Não precisou andar muito para saber o que havia acontecido. Um bilhete o esperava sobre o criado mudo. “Querido Horácio. É com tristeza que escrevo essas palavras. Mas já não consigo mais viver a seu lado. Quando você estiver lendo este bilhete, já estarei longe com as crianças. Você não é mais o homem que aprendi a amar. Não morre mais como antigamente. Tem dia que morre, tem dia que não morre, e na verdade já faz três dias que não morre. Talvez não tenha notado, porque deu de não se lembrar direito das coisas. Outro dia me chamou de Irene, deve ser algumazinha com quem você vem saindo nesses dias em que não morre. Enfim, as crianças também estão a estranhar muito isso tudo e ficando com medo de você. Elas têm medo de que você não morra mais ou então que morra de uma vez. Agora, com suas palavras de ontem à noite, vi que não havia mais condição de ficarmos juntos. Sua – enquanto fui sua – Clotilde”.
Horácio Marana foi até a pia com o papel e desfez sob a água cada letra caprichada da cartinha da mulher. Enxugou as mãos, foi até o quarto do pai, que dormia, pegou o chapéu do velho, pôs o chapéu na cabeça e saiu para a rua, disposto a fazer uma viagem como a do velho, mas para não voltar nunca mais porque não teria para quem contar as histórias de sua viagem. Lá fora, a claridade era muito maior do que o normal para um dia de verão.

 

* este conto foi escrito pelo jornalista e leitor, Jary Mércio.

Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.