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Fabulosa manhã de Izadora (por Dany Fran)

outono

Suaves rangidos dos finos galhos, quase sem folhas, arranhando o vidro da janela, irritavam Izadora. Ela costumava gostar das árvores no Outono, mas isto quando parava para ver o balé das folhagens secas e, sem piscar, acompanhava o movimento irregular de cada uma, juntas. Agora, ela não costumava parar mais. Neste dia gelado tudo era escuridão. O sol já tinha levantado, mas se escondia atrás das nuvens. O despertador tocou sete vezes. Bufando, Izadora ignorou todas as badaladas. Seis e meia da ‘madrugada’. Domingo. Não precisava correr. Sem cartão para bater. Nem lista pra cumprir. Quando Izadora esticou o braço para desligar o inoportuno, ele despencou, mas não quebrou.
Corpo curvado e protegido pelo edredom de malha gasta que quase lhe trazia a infância de volta, ela não se mexia. Só que até o sono tinha lhe abandonado. Vestiu um moletom por cima do pijama e seguiu acompanhada pelo vento, pela Avenida Visconde de Guarapuava.
café– Ai! – reclama monossilabicamente.
– Você vem aqui há tanto tempo e parece que se esqueceu da temperatura escaldante do nosso café, Iza –  diz Marta abrindo um sorriso ao se aproximar com o bule soltando fumaças e depois de completar a xícara de café de Izadora continua – o que você não deveria se acostumar é com essa cadeira vazia ao seu lado.
Izadora mal ouve o conselho da amiga garçonete, pede um cheese cake de frutas vermelhas com calda de cerejas frescas extra e arregala os olhos ao ver, entrando pela porta da frente, uma mulher vibrante. Bonita com um simples rabo de cavalo; escandalosamente feliz por sentir o aroma do café da manhã; sorrindo de um jeito espontâneo para o atendente que, gentilmente, lhe abriu a passagem entre as mesas de madeira para encontrar suas amigas. Estranho. Izadora teve a impressão de já ter visto aquela exata cena, aquela sensibilidade ao charme dos pequenos prazeres. Pior, de já ter vivido.

amelie-6Quando Marta a viu pálida, de boca aberta, segurando a xícara suspensa no ar e olhando perdida para a saída da cafeteria; perguntou: – Viu um fantasma, Iza?

Izadora não tinha tido um Déjà Vu. Apoiada na parede fria, Izadora tinha reconhecido no espectro daquela garota seu pior fantasma. A lembrança dela própria.

Uma chaleira apitou. Sua cereja chegou.

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Você estava certa Amélie Poulain, como pode quando o dedo apontar o céu, o idiota olhar para o dedo? Estragar a própria vida vai mesmo ser, sempre, um direito inalienável!

Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.