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Um bom achado nas redes sociais: JÚLIO VICTOR

As redes sociais podem ser um “engana-trouxa”, uma arapuca para o seu tempo. Você encontra todo tipo de ladainha, com 1000 palavras  bonitinhas, mas que, na verdade são discursos evasivos e pouco – ou NADA – consistentes. Você também encontra pessoas que são bem melhores virtualmente do que pessoalmente…

Só que existe muita coisa boa no mundo virtual. O que vale tanto para o conteúdo, quanto para as pessoas. Cabe à VOCÊ separar a semente boa de todo o resto.

E uma SEMENTE BOA, que as IRMÃS DE PALAVRA encontraram nas redes sociais, foi JÚLIO VICTOR, 23 anos, produtor musical e estudante de Psicologia. Atualmente desenvolve e produz conteúdo cultural para o Youtube, no canal Tá Na Capa. Este canal é focado em música, mas, abrange todas outras formas de arte. O seu envolvimento se dá em vários sentidos, incluindo no âmbito literário, faceta a qual poucos conhecem dele.júliovictor

E para os nossos leitores conhecerem um pouco do que o JÚLIO VICTOR produz na literatura, um conto que ele escreveu, chamado OS RECURSOS HUMANOS. Beijos e boa leitura a todos!!

Os Recursos Humanos

Domingas leva sua vida com a mesma seriedade que uma emergência pede. Talvez seja por isso que ela é a única empregada dentre todos os seus companheiros recém-formados em Psicologia. Fora contratada para trabalhar em uma montadora automotiva, onde realiza entrevistas com candidatos a determinadas vagas. Existe tremenda satisfação nesta função, pois sempre possuiu este estranho fascínio por decifrar olhares e frases. Era como se pudesse driblar a propaganda que cada um faz de si, tendo assim acesso à genuinidade cultivada às escuras. Conhecer as pessoas como elas realmente são é algo possível, mas para Domingas era necessário.

Embora estivesse fazendo todos os dias algo que sempre lhe foi prazeroso e natural, assim como um traço de personalidade, ocasionalmente acordava em meio à madrugada. Lembrava-se que o nome dele não estava mais em sua agenda do celular ou em qualquer rede social. Infelizmente, não era possível deletá-lo da cabeça, embora tivesse muitos motivos para esquecer. Quando um relacionamento acaba, tendemos a amplificar certas características nossas como uma forma de afirmação e fortalecimento pessoal. Por isso andava um tanto mais fria que o comum e totalmente fiel às diretrizes de seu emprego. Desde então não havia nada que a fizesse se atrasar ou perder sua postura profissional.

Um namoro longo sempre acaba por causa de algo que é relevado desde o início. Como uma corda posta ao pescoço, basta saltar para tudo acabar, mas não há coragem. Ele era o tipo de homem incapaz de falar sobre seus defeitos, pois não conseguia os encontrar em lugar algum. Além disso, era maleável como uma nuvem, comportando-se de diversas maneiras, sempre de acordo com o lugar e o círculo social no qual interagia. Variava entre a timidez típica de um rapaz culto até a extroversão politicamente incorreta de um bufão embriagado.

Esta carapaça desprovida de defeitos acabou cativando Domingas, pois sua curiosidade fora atiçada pela peculiaridade ali apresentada. Via a variação de humor e personalidade como um grande enigma, o qual por quatro anos esteve disposta a decifrar. Mas não existe quem não se canse. Estar com um estranho, que parecendo ser vários acaba sendo ninguém, é um tanto doloroso. Eram diversos namorados, todos irrefutáveis, orgulhosos e que jamais demonstravam fraqueza ou falavam de si.

Mesmo tendo recaídas e lapsos de saudade, Domingas preferia seguir demonstrando que nada de diferente havia acontecido. Continuou morando sozinha, pagando suas próprias contas e não se abatendo em público. Não voltou a comer carne ou deixou de beber quando lhe dava vontade. Embora estivesse abatida diante da solitude, na qual estava imersa seis meses, seus traços levemente masculinos escondiam tais evidências. O queixo um tanto quadrado aliado aos longos ombros contrastava com o seu quadril pouco evidente, configurando-a como uma fortaleza intocável.

Tavares, por sua vez, luta para ao menos se manter. Após conseguir seu primeiro emprego, saiu de casa para evitar mais desentendimentos com seus pais. Nossos progenitores se frustram quando um filho não se torna algo semelhante a eles. Neste caso, Tavares era tudo aquilo que seus velhos foram impedidos de ser. Com tanta tinta pela pele e liberdade em seus pulmões, assumiu ser alguém que não se pode domar, do tipo que não é capaz de trocar a estabilidade futura pelo presente estático. Por isso não conseguiu recusar a oportunidade que um velho amigo lhe deu. Ter a carteira assinada em uma tattoo shop é algo para poucos. A loja era grande e ficava em um dos maiores shoppings da metrópole. Desde então, Tavares passava o dia furando a pele de quem quisesse ser transpassado e ganhava a vida causando dor. Quando tinha tempo, ensaiava com sua banda de hardcore composta por amigos que conheceu no ambiente de trabalho.

Todo plano pode desmoronar a qualquer momento. Após uma desavença com o dono do estabelecimento, ele foi demitido. Agora estaria contando apenas com o seguro desemprego por um curto tempo. Viver com pouco não é fácil, por isso precisou vender seu baixo para garantir sua dignidade enquanto não encontrava outro emprego. Em momento algum pensou em voltar para a casa de seus pais ou ao menos dar algum tipo de notícia.

Agora que estava desempregado e com pouco dinheiro, inevitavelmente perdeu seu círculo social e banda. Gradativamente foi realçando seu desamparo, isolando-se cada vez mais. Poucos realmente conheciam o que se passava por trás daquele tatuado, pois ali havia um homem religioso. Todo o domingo ia até uma igreja Batista próxima à sua casa e lá conversava com poucas pessoas. Aqueles que ousavam trocar algumas palavras com ele percebiam logo de cara um rapaz careta, espiritualizado e tímido. Agora,

desempregado, não havia nele mais vontade de frequentar aquele lugar, mas não lhe faltava fé.

A voz baixa não se amplificava mais nos shows ou ensaios, ocasiões onde podia ganhar a expansão simbólica que precisava. Não havia mais nada que evitasse o cativeiro e tudo colaborava para a sua autocontenção. Passava o dia refletindo e procurando por vagas de emprego como quem busca uma parceira. Seu romantismo natural o motivava a amar o próximo emprego, não importando qual fosse.

Passou então estes cinco meses participando de processos seletivos diversos, para os quais se preparou com o auxílio da internet. Seu comportamento nunca falhou em uma dinâmica de grupo, onde buscava sempre se mostrar como um líder comunicativo e proativo. Não havia como errar, bastava seguir as regras de comportamento que isso iria garantir seu passaporte para a próxima fase: a entrevista.

Participou de dez entrevistas durante este tempo e não foi chamado para vaga alguma. Mesmo seguindo tudo que era aconselhado, Tavares continuava desempregado. Não bastava dizer que seu maior defeito era o perfeccionismo ou a sinceridade, pois de fato não era. Também não adiantava se declarar como alguém organizado, comunicativo, focado em resultados ou que se dava bem em trabalhos em equipe. Todos os participantes falariam as mesmas coisas. Nessas horas percebemos que é preciso ter um nome, um brilho.

Quando notou que possuía apenas mais um mês de seguro e apenas um processo seletivo, colocou em seu coração que desta vez seria diferente. Não seguiria regra alguma ou fingiria ser algo que não era. A dinâmica em grupo foi uma etapa que lhe trouxe grande insegurança, uma vez que não falou muito, mas procurou se expressar nos momentos certos com falas e atitudes relevantes. Mesmo com a mente tranquila quanto ao seu propósito, voltou para casa preocupado naquela noite, dominado pela insegurança de ser quem era. Após receber o telefonema convocando-o para a entrevista individual, sentiu o que deveria ter feito desde o início.

No dia da entrevista não usou mangas longas ou roupas sociais. Colocou a camisa de sua banda preferida, uma bermuda e não tirou os brincos que sempre usou. Durante a

espera lembrou-se de como havia sido aquele momento de espera em outras ocasiões. Ao invés da tranquilidade para fazer a mente vagar por onde quisesse, havia uma cobrança e recordação constante sobre o que deveria fazer. Desta vez era diferente.

Quando chamaram seu nome, imediatamente se levantou e foi encarar sua última chance. Olhou nos olhos da entrevistadora e sentiu-se acanhado, pois ela o encarava como quem quer devorar algo. Após a troca de olhares e um cumprimento tímido, deu-se início ao procedimento padrão de uma entrevista de emprego. Diante de perguntas tão simples e objetivas, a entrevistadora percebeu a naturalidade com a qual ele as respondia. Falava como quem conversa e não como se ministrasse. Diante da pergunta mais temida e previsível de todo o processo de seleção, Tavares a surpreende:

– Meu maior defeito é a timidez. Às vezes evito falar certas coisas por simples acanhamento. Deixo de fazer certas coisas por não querer me expressar. Também sou otimista, não tenho meus pés no chão, logo, acabo sendo uma pessoa muito desatenta.

Naquele momento pôde perceber um sorriso no rosto dela. Algo totalmente fora do comum. Após o vislumbre, a entrevistadora continuou com o processo, porém com uma insegurança cada vez maior. Sua postura fria e metódica se desnudava em meio à gagueira, mãos próximas ao rosto e risos frouxos. Ao final da entrevista, antes de se despedirem, ela sugeriu:

– Poderíamos sair um dia desses?

Espantado, Tavares não negou o pedido. Mesmo sem entender o motivo, viu-se encantado também. Trocaram seus números de telefone e ambos se despediram após aquela cena incomum. Pode ser que o afeto seja mais importante que o sustento. Pode ser que o necessário venha pela transgressão das normas. Talvez ele não necessite tanto de um emprego e ela só precise de alguém que não seja preciso decifrar, apenas conhecer.

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".