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A PORTA – por Beatriz Linhares

Uma folha em branco é uma amiga e tanto para a jovem Beatriz Linhares, que vive em Maringá. Estudante, 15 anos, adora histórias. Lidas e escritas. Nas palavras, Beatriz encontra lugar para suas buscas e paixões. E as Irmãs de Palavra encontraram o gosto por ler desta adolescente no primeiro Clube de Leitura Amigos de Palavra. Desta reunião já brotaram novas histórias. Temos o prazer de postar o conto A PORTA, escrito por Beatriz e incentivado pela, também amiga, Franciele Falavigna.
puerta-entornada[1]
“Quando entrei na recepção, imediatamente comecei a suar e sentir o característico nó de enjoo se formando na garganta. O sorriso da secretária parecia forçado, numa falha tentativa de me acalmar para o que estava por vir. Ela, educadamente, orientou-me a esperar em uma pequena sala. Silêncio mortal. Uma porta branca a minha frente anunciava a rota do sofrimento. Crianças, iludidas, brincavam com qualquer coisa sem saber o que poderia acontecer a partir do momento que passassem por aquela porta que levava ao meu inferno. 
Velhas revistas jogadas acumulavam-se entre as cadeiras. Peguei uma sobre o mundo dos famosos. Tentei começar a ler, mas a angústia era tanta que não conseguia me concentrar e as gotas de suor já começavam a ficar evidentes em minha testa. Um a um os pacientes foram sendo chamados e o terror de ser o próximo nome me apavorava; o que deixava meu corpo estático.  
Os ponteiros do relógio moviam preguiçosamente, como se debochassem de minha condição, fazendo com que minha ânsia de sair daquele lugar amedrontador aumentasse a cada segundo. Qualquer plano de fuga que eu havia criado até o momento fora completamente arruinado quando a secretária chamou pelo meu nome. Ela não tinha mais o mesmo sorriso, mas um olhar piedoso, como se soubesse o que eu estava prestes a enfrentar. 
Já dentro da sala de consulta, minha respiração ofegante falhou. E, apesar do ar condicionado ligado no máximo, sentia meu sangue borbulhar.  As paredes completamente brancas traduziam minha solidão, como se ninguém pudesse me salvar naquele momento. O particular cheiro de hospital passou a ocupar minhas narinas, fazendo meu estômago dar voltas até ficar tonto.  
Deitei na cadeira e foi como se meu destino estivesse traçado, agora, mais do que nunca, não havia jeito de escapar. Ouvia uma voz que tentava invadir meus sentidos, no entanto tamanho era o nervosismo que demorei a perceber. Era  o doutor tentando estabelecer uma conversa, mas essa não foi muito longe, já que não éramos próximos e havia muito a ser feito ainda.
 Então, o barulho daquele terrível aparelho torturou meus ouvidos, cortando meus tímpanos profundamente e fazendo subir um arrepio pela minha espinha. Os minutos naquele móvel pareciam séculos e qualquer nova tentativa de comunicação era imediatamente interrompida com a entrada de mais um bizarro instrumento em minha boca. Tentava pensar em outra coisa, mas meu corpo inteiro vibrava e se retorcia mudamente.
Sair daquela sala foi como acordar de um pesadelo. A tontura e o enjoo se esvaiam aos poucos e aquele lugar, que antes parecia uma casa de tortura, já não era tão intimidador. Meu torturador, de jaleco branco e máscara, finalmente terminou a sessão e a porta, aquela que antes me trazia ao inferno, agora me abria a liberdade. Lá fora, crianças e adultos encolhidos, olhares perdidos para a porta. Nenhum sorriso.”
Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.

  • Luana Lopes

    Arrasouu biaa!!

    • Irmãs de Palavra

      Arrasou mesmo, muito bom!

  • Jary Mércio

    Escreve bem, descreve bem, com expressividade. O “Nenhum sorriso”, no final, fecha o texto com fina ironia. Vejo futuro na autora, que saberá, com o tempo, buscar temas especiais e aprofundar o senso crítico. Parabéns!

    • Irmãs de Palavra

      É isso aí, Jary! Bom demais sua presença aqui! E novos autores. E futuro.