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O TRIUNFO DO CORVO – Irmãs de Palavra

Foi o dia mais sombrio de todos. A noite, longa e escura. Havia estranhos temores por trás de todas as coisas. E eu estava sozinho, procurando pelo maldito bando, que sempre me abandonava.

Enquanto procurava, eu grasnava: Malditos, malditos.

Deparei com a casa. Observei-a na meia-noite que apavora.

Bati à porta.

Uma, duas, três batidas.

Um homem abriu e não me viu. Caindo de sono e exausto pela fadiga, fechou depressa a porta. Mas antes disso, vi nele a esmagadora agonia. Então gostei e fiquei rondando a casa. De vem em quando eu murmurava meu nome para a névoa que ameaçava: Edgar, Edgar.

O pavor foi crescendo dentro e fora da casa. Ouvi os pensamentos dele que sussurravam: “É apenas isto, e nada mais”.

Batia à janela. O homem abriu e eu entrei. Olhei direto para ele. Aquele homem feio e escuro.

Ele me perguntou o que eu fazia ali, com olhos amedrontados e cheios de dor. Eu respondi: “Nunca mais. Nunca mais”.

Ele compreendeu que tudo era fúria. Seu amor estava perdido para a morte tenebrosa. E isso me fascinava. Cantei em uníssono: “Nunca mais. Nunca mais”.

Ele pôs sua alma na minha cara, deixando de vez toda a aurora. E eu resplandeci: “Nunca mais. Nunca mais”.

Ele estremeceu diante do precipício escuro que se deu e entrou, de uma só vez, no implacável destino do seu castigo. Eu implorei: “Nunca mais. Nunca mais”.

A tristeza nos envolveu em um só pensamento. Mergulhamos juntos no pântano perdido de sua mente.

Eu me senti mais forte e mais fatal, enquanto ele se entregava à lúgubre quimera. Grasnei o mais forte que pude: “Nunca mais. Nunca mais”.

Então todo o devaneio se deu e ele fez reverência a deuses imaginários, clamando pelo seu amor devastado, que engolia toda a família.

Eu murmurei em regozijo: “Nunca mais. Nunca mais”.

O mal eterno cresceu nos olhos dele, enquanto o horror invadia a casa, nos levando para as profundezas demoníacas.

E eu sussurrei: “Nunca mais. Nunca mais”.

Ele proclamou a profecia: “Escuta, atende, escuta, atende”.

Eu respondi: “Nunca mais. Nunca mais”.

Ele clamou pelo amor e pela morte, numa súplica: “Leve-me, Edgar! Leve-me”.

Eu abri seu peito com as minhas garras mortais. E cantei as sombras imutáveis: “Nunca mais. Nunca mais”.

E a luz caída ensaiou o cenário para o sepulcro perpétuo.

A casa chorou e a minha escuridão triunfou: “Não sai mais, nunca, nunca mais”.

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Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".

  • Jairo Fernandes

    Ótimo.

    • Irmãs de Palavra

      Grande abraço!!