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Distância entre quatro paredes

O leitor deu a dica: distância entre quatro paredes é quando está tão próximo, que você não vê.

E quem é o vilão da história? A rotina e seus dessabores.? Sua falta de iniciativa? A acomodação do outro e o tédio que isso provoca em você?

As IRMÃS DE PALAVRA  têm algo a dizer…

D                                                      I                                                                                                                                                                              S                                                                                                                                                                                      T                                                                                                                                                                                                                   Â                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            N

 

C

                                                  

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                                                                                                                                                                                                                 A

Num instante, junta tudo e vira distância.

Só se você quiser,

Só se você puder,

Só se você não estiver tão-tão-tão-tão-tão-tão distante, que já não exista caminho pra voltar.

Nem que seja devagar…

 

“Ainda era outono. Arthur ansioso procurava seu nome na sétima chamada do curso de Direito na parede, pra ele ainda estéril, da Universidade Federal do Paraná. Olhos atentos. Não relaxaram nem quando sentiu o calor de Malu se apoderando de suas costas. Foi na hora que o queixo dela se encaixou no ombro Arthur que ele arrepiou todos os poros vendo, em letras minúsculas, o seu nome. Completo. Arthur Pompeu da Silva. Virou para frente de Amanda. Agora era todo o seu peito que ela aquecia. Malu pode sentir o pulsar de Arthur enquanto pulava no mesmo compasso que o namorado.

– Eu passei!

– Meu lindo advogado! Eu te amo, meu amor. Eu sabia que você conseguiria.

Sou o cara mais feliz do mundo. Terei a carreira que tanto sonhei. E já tenho a mulher que sonho. Todos os dias!

E foi ali, no meio de tanta gente, à luz do dia, diante de uma parede branca, suja, manchada com fita adesiva, tantas listas coladas e descoladas; que eles deram o beijo mais efervescente que já tinham dado. Pelo menos até então. Neste dia, ficaram um dentro do outro, a tarde toda. E Arthur conquistou, de verdade, seu primeiro amor.

Seis horas da manhã. Café preto e tubo. Articulado direto pro trabalho. Com três meses de curso Arthur já conseguiu um estágio no Ministério do Trabalho. Aplicado. Interessante. A bela professora de Filosofia, bem articulada, conseguiu uma vaga para seu aluno predileto. Arthur tinha futuro. Seis horas da tarde. Banho. Mais café preto e outro tubo. Sala de aula. Onze da noite. A melhor parte do dia. Ou seria da noite? É quando Arthur entrava na república de Amanda. Ela também tinha passado no vestibular. E naquele ano quase todas as noites Arthur encontrou na cama de Malu sua melhor versão.

Continua. Um outono atrás do outro.

– Arthur, fim de semana passado eu fui à festa da sua turma. E por que não quer ir hoje à festa da minha? A promoção é pra arrecadar verba pra formatura. Além do mais eu adoro aquela boate. Você sabe muito bem disto. Já fomos juntos tantas vezes!

– Porque hoje eu simplesmente tô cansado. Trabalhei o dia inteiro. Além do mais, tá pensando que direito é a moleza que é publicidade?

– O que? Tá falando que o que faz é melhor do que o que eu faço? É isto mesmo que eu ouvi? Cara, você tá virando um ‘advogadozinho’ soberbo. Não é o mesmo Arthur que me apaixonei!

– E alguém por acaso é exatamente o mesmo hoje que foi ontem? Acorda, ‘Alice’!

– Petulante. Quer saber?!  Cansei!

Tá querendo dizer o quê? Toda vez fala a mesma coisa, eu já ouvi esta ladai…

Malu interrompe Arthur e rasga direta. 

– Eu quero um tempo!

A festa foi de arromba. Ficou pra história da Federal. Bar lotado. Rock and roll. Garrafas esvaziadas. Degustadas. Malu se divertiu horrores na festa da sua turma e quase não prestou atenção em Arthur, que se arrastou a madrugada inteira atrás da sombra da quase ex-namorada.

Como toda boa sombra que se preze, não demorou muito para Arthur pesar sobre Malu. O primeiro amor. Pode um dia ser, literalmente, o primeiro amor da sua vida. E ela entendeu isto primeiro que Arthur. Um mês depois da festa disse para ele que estava indo para São Paulo ser trainee de uma multinacional por um ano. Ele ficou desolado com a notícia. Mas também sabia que não era a ponte aérea que os separava. Soube ali que amar podia ser uma escolha. Mas o desamor não. Absolutamente o desamor era uma aceitação. Uma difícil aceitação. Ao menos para um.

No dia de se mudar para São Paulo Malu passou a mão pelo pescoço de Arthur e como uma delicada e ardente benção fez ele se lembrar de seu indomável desejo por tê-la. E ela teve a fabulosa sensação de estar fazendo exatamente aquilo que queria.

Arthur achou que os escuros dias curitibanos ficariam ainda mais fechados. Não foi bem o que aconteceu.

– Arthur, vamos para Crossoroads este sábado?

– Não vai dar. Malu vem pra cá.

E o que para ele era improvável, aconteceu. A ponte aérea os ligou ainda mais. Longe se esforçavam pra se ver. Por um ano, incrivelmente, deu certo.

Até que mais uma surpresa. Malu voltou para Curitiba. Transferida. Era outono. Dias cinzentos. E os ventos trouxeram mais que Malu para Arthur. Ao alcance, o real poder ser surreal.

– Cora, ele está sempre cansado. Eu não tenho tempo pra dar conta de todos os meus projetos. Ontem cheguei em casa com um vinho. Enquanto tomei banho ele adormeceu no sofá. Tomei quase a garrafa toda sozinha. Como fazia quando estava em São Paulo. A diferença.  Enorme. É que agora eu o via. Apático. Do meu lado.

Cora era uma velha amiga. Separada. Amigada. Malu costumava dar peso às palavras “coralinas”.  Desde os palpites às profecias.

– Malu, Malu. Oito ou oitenta. Toma fôlego, menina. Uma noite por vez. Tem outra garrafa na adega? Se por acaso não tem, compre e tire, mais uma vez, as taças do armário.

– Ai… Não sei! Sentir um frio na barriga em dias claros é fácil. Quero ver no dia a dia nublado.

– Querida, não se nutra da luz alheia pra compensar a sua fraquejante! “

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Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".