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a falta – por dany fran

imagens 3A ausência é ótima!

Pra rasgar o seu mundinho e jogar na sua cara o que lhe é, de fato, ‘caro’. No mais precioso sentido.

No meio da ‘sonzera’, risos. Quase imperceptíveis com o barulho da vida acontecendo dentro do meu carro. Janelas fechadas, Pitty cantava pra mim e meus filhos. ‘Sete vidas’ ressuscitava minha banda predileta. Particular. No banco de trás Pedro encarnava um baterista de chuteiras lunático arrasando com suas baquetas invisíveis. Valentina criava uma guitarrista dividida entre o acorde e o coque de bailarina que terminava sozinha, a roqueira mais linda do mundo. Pelo menos do que eu existo! Mas neste dia a vocalista, tentando atropelar as horas, esqueceu de acompanhar a banda. Enquanto as crianças embalavam, sem ensaio, um ritmo divertido seguindo pelo mesmo trajeto; eu seguia alheia. Maquinando sobre o tempo perdido na fila de sempre e gastando energia ao ruminar o que não tinha feito, ainda.

Até que não fui parada apenas pelo sinal vermelho, mas pelo caminhão que parou poucos metros a minha frente, do lado esquerdo. Três homens pendurados na caçamba entupida pelo nosso lixo. Dois estagnados. Também pareciam alheios ao giro das histórias. O terceiro, vestido com um uniforme diferente e fones no ouvido, mexia os quadris e a boca com tanto frenesi que me arrancou uma careta. Seguida de um sorriso. Só então percebi que enquanto cantava, ele não perdia uma cena e parecia vidrado na vida acontecendo fora do seu quadrado.

Um novo pensamento me interrompeu. Enquanto acelerei e passei por eles imaginei aquele lixeiro ‘feliz’ ser um presidiário cumprindo regime semiaberto, pagando pena à comunidade. Como leis podem permitir. E o coletor de descartes parecia catar o melhor ali. O interesse! Na verdade, pouco me importou o motivo que supostamente teria transformado aquele provisório lixeiro em um eterno presidiário (dos seus erros). Nem se ele era realmente um infrator.  Mas no meu devaneio a perfeita lógica da ausência provocar o deslumbre daquele homem me acordou.

Mesmo que a fila ande, os preços barateiem ou até as músicas parem de nos distrair; ninguém precisa acreditar no que você acredita ou concordar com o que pensa, pra você enxergar a beleza do ‘presente’ quase escondido no imediatismo cego.

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Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.