SURREAL

Corpo(s)

A vida sempre em plural. Muito plural! E isso não é uma frase de efeito. É só constatação. Ingênuo, leviano e egoísta o pensamento de um caminho único. Um tipo de gente. Um perfil de felicidade. Uma aparência de corpo. Uma só palavra.
As IRMÃS DE PALAVRA felizes em dobro. Ganharam de presente. Dois livros. Da artista, fotógrafa, performática, professora e belíssima pessoa, Fernanda Magalhães. Que conhecemos através de outra pessoa plural como Fernanda, a Mulher das Palavras: Karen Debértolis. É, realmente, o mundo é cheio de surpresas das boas. De encontros viscerais.

corpo 2Que somos ‘corpos’ em mutação constante e obra pra sempre inacabada, não é o novo. Mas o princípio para seu conceito ampliar e suas fronteiras se expandirem depois de ler Corpo Re-construção – ação ritual performance, livro tese de doutorado da Fernanda Magalhães. Dona de uma percepção sensivelmente aguçada, contestadora e livre. “… tão eu, cruamente. O amor e a arte me salvam a cada dia.”

Foi um mergulho poético ver alguém se colocar, interagir com a realidade atravessando distâncias, estranhamentos. Inclusive os seus, particulares. E tão subjetivos!
As marcas do outro, moldadas em nosso corpo, reconstroem o nosso próprio corpo. Enquanto história. Quem somos. Estamos. E podemos ser! A andança e as trocas contínuas de Fernanda acenderam a crença de múltiplas possibilidades para uma formação contínua. Gostamos muito disso!
Fabuloso também é ler, reler e rever a fotografia não como um registro técnico da realidade. Mas possibilidade de criação, captação artística da vida. Olhar entrecortado. Quebra de imposições e conceitos fechados. E assim, cravar ruptura em uma cegueira coletiva causada pela repetição das mesmas e insistentes imagens.
Para Corpo Re-construção, as IRMÃS DE PALAVRA dizem: “Fernanda, seu corpo reconstruiu outros, outros tantos, os nossos nesses tantos. Abriu narrativas recriadas. Trabalho que soma o mundo, porque revela verdades submersas ao paisagismo grotesco estampado no dia a dia. Avanço poético, político e pessoal. Essa leitura faz isto!”
As IRMÃS DE PALAVRA receberam outro livro: o Eulália Neutra, que nas palavras de Fernanda Magalhães: “Pequeno livro, fino mas lindo, eu amava, era o livro de meu pai…”. Livro publicado pelo pai de Fernanda – Antonio Vilela Magalhães – em parceria com um amigo, Arnaldo Magalhães, e com ilustrações de outro amigo, Darcy Penteado, no começo dos anos 1950 em São Paulo.
Eulália Neutra (edição fac-similar comentada), Fernanda Magalhães (org.), Londrina: Travessa dos Editores,2011; é uma obra rica em resgate cultural. Traz para o mundo hoje trajetórias e movimentos artísticos de Londrina, que não podem, não devem serem esquecidos ou relegados. Memória cultural é identidade do agora! Os avanços que desfrutamos hoje foram trilhados por outros pés, ou neste caso, outras mãos escrevendo poesia. A filha resgatando a história do pai e da memória cultural de uma cidade, um povo. O livro é um poema estendido. Bonito que é, saltam algumas frases: “… Há mil e uma razões, nenhuma só verdadeira…” “Veio a vida. E depois?…”
Fernanda Magalhães debruça no mundo as impressões ocultas. Revela no outro, as possibilidades infinitas. Tem coragem. Tem ousadia. Demais, porque isso é como vírus, vai se espalhando. Ao invés de doença, lança consciência. Pensa bem! É mesmo demais!!
AS MULHERES TENDO ENCONTRADO SUAS VOZES TÊM ALGO A DIZER. (Virgínia Woolf – 1997)
* texto: Kelly Shimohiro e Dany Fran
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Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.