Provocações femininas – as histórias das mulheres

A vida de toda mulher é contada por suas muitas vozes. Porque não somos uma. Somos tantos personagens (ou personas) quanto conseguimos expressar. O fio da nossa individualidade une a todos. E somos essa mulher. Agora, porque daqui a pouco podemos bem nos transformar, compreender, crescer, se expandir… Assim é feito o mundo. Das nossas vozes. Das nossas histórias.

PicCollage

Porque a palavra está mesmo SEMPRE moldando a nossa realidade. Há uma década foi criada uma lei que tem mudado (mesmo ainda tendo muitas páginas pra virar) a vida de mulheres brasileiras, a lei Maria da Penha. Mas essa história começou há mais décadas. Depois de 23 anos de agressões, um novo capítulo. A protagonista desse enredo, Maria da Penha Maia Fernandes, quase morreu, levou um tiro quando dormia e ficou paraplégica. O agressor, era outro protagonista, o personagem que um dia já foi seu príncipe ‘encantado’. Como em uma ficção policial a realidade não parou por aí, e após uma nova tentativa de assassinato, quando quase foi eletrocutada no banho, Maria da Penha denunciou o parceiro. Mas a batalha para ele ser condenado, por incrível que pareça, foi longa e árdua. E mesmo depois de muito tempo, ele ficou preso apenas por dois anos. Essa história está em um livro. Sobrevivi, posso contar (1994). Em 2006 a personagem dessa obra foi responsável pela criação da Lei Maria da Penha, que há 10 anos tem modificado a vida de muitas outras mulheres que sofrem violência doméstica. Física, moral e sexual. Ainda há muitas realidade pra sacudir, histórias pra contar, mulheres pra não calar e, ainda bem, palavras pra gente soltar e até ‘quebrar’.

O que diria, a ‘escutadeira’, jornalista e escritora Eliane Brum. Que acolhe a realidade com profundidade, rasga seu olhar e nos abre labirintos para seguir chacoalhando o nosso ‘piscar’. “O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem”. (trecho do livro A Menina Quebrada)

Em Mulheres que correm com os lobos (Clarissa Pinkóla Estés), a Mulher Selvagem grita por aquela nossa parte que não se deixa acossar. A nossa parte que respeita os ciclos das nossas vidas. A nossa parte que usa a intuição como um guia.

Em O Estranho Contato (Kelly Shimohiro), Ágatha enfrenta as angústias que fazem parte do crescimento de toda mulher e segue, mesmo sem se dar conta, o seu radar. E vê sua vida desabar com uma paixão de outro mundo. Nós já vivemos isso, ou desejamos uma paixão assim.

Anne Frank, em seu Diário, conta ao mundo dos nossos dramas adolescentes. De recusa em se calar frente aos conflitos e imposições familiares. Nossa descoberta da sexualidade. E nossa dor, quando vemos o mundo morrer a nossa volta.

J.K. Rowlling na saga Harry Potter conduz a personagem Hermione a testar seus limites de coragem, de solidariedade, de amizade e da capacidade de transformar-se. Toda mulher sabe que é assim que se cria uma vida mais significativa, para si e para o outro.

Kate, personagem de Eu Vejo Kate (Cláudia Lemes), é uma escritora que relata a história de 12 mulheres que sofreram abuso, vítimas de um serial killer. Porque não podemos nos calar frente à violência que uma mulher vive (sejamos ou não esta mulher). Não podemos virar as costas para os dramas que acontecem a nossa volta. Nunca saberemos quando estes serão nossos próprios dramas.

Em Dias Nublados (Dany Fran), Izadora dá voz à nossa mais sonhada conquista: transgredir os obstáculos que o destino nos impõe, tentando construir um sentido mais verdadeiro para nossa própria vida, mesmo com nossas dores, mesmo com nossas perdas…

Catherine M. (Em A vida sexual de Catherine M., de Catherine Millet), choca o mundo em suas revelações sexuais. E traz temas moralmente condenáveis à tona. E nós mulheres sabemos que o diálogo é mesmo a única alternativa para se construir uma vida. E diálogo também fala de coisas estranhas, que não aceitamos, da diferença do outro, do que muitas vezes, repudiamos. Se não assim, seria monólogo.

Diários de uma paixão (Nicholas Sparks) nos apresenta uma personagem – Allison – que não se deixa doutrinar pelo que é mais conveniente, pelas regras familiares, pelos falsos emblemas sociais. É aquela nossa voz rebelde que não permite ao mundo (nem a si mesma) afogar nossas paixões. Porque se deixássemos, viveríamos como mulheres espectrais.

E você quer viver como um fantoche do real ou prefere encarar nítidas visões de si, percebendo-se e reinventando-se…Pra isso é preciso debruçar sobre seus sentimentos e encarar seus reflexos como Clarice Lispector nos convidava em suas palavras. Afinal, “quanto ao futuro”, talvez, seja melhor não ser como a Macabea, protagonista de A hora da estrela, e fisgar o nosso presente, com toda a sua complexidade.

Carolina Maria de Jesus, autora nacional traduzida para mais de 10 idiomas, é uma inspiração para todas nós. Como um chamado para tudo o que importa. Esta autora, nascida em Minas Gerais e moradora de uma favela em São Paulo, produziu Quarto de Despejo (1960) em cadernos que pegava nos lixos. Ela era uma catadora de lixos. Em suas palavras, em Quarto de Despejo: “Eu deixo o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa a pensar nas misérias que nos rodeia. (…). Deixo o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. (…) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela. Fiz o café e fui carregar água. Olhei o céu, a estrela Dalva já estava no céu. Como é horrível pisar na lama. As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários.”

Já que os destinos são provocados ou sentenciados por nós próprias. Virginia Woolf diria “A Sra. Dalloway deveria inicialmente matar-se, ou talvez, simplesmente morrer no fim da festa”. No fim mesmo a Sra. Dalloway permaneceria viva e nos questionaria como, diante da nossa rotina, damos conta de mantê-la mais acesa. Onde e como for.

As Irmãs de Palavra ficariam aqui citando autoras e personagens femininas para sempre. Mas nem você, nem nós podemos com esta tarefa. Então, chegamos à parada.

Porque a parada é SEMPRE transitória. E um ‘bom’ livro é um ‘bom’ mundo pra caminhar. E que assim seja, como bem diz, e nos provoca, a bela escritora e jornalista Karen Debértolis em A estalagem da alma. “Aprendi, então, a captar a alma das coisas. Não aprisioná-las”.

E que seja esse o seu destino, o destino da mulher. Captar sua própria alma e expandir-se. Nunca aprisionar-se!

  • texto: Kelly Shimohiro e Dany Fran
Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.