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Uma história dentro da outra

Ágatha Guiller (de O Estranho Contato) é uma garota desajustada. Qual a faísca da sua história? Qual é a sua grande questão? Encontrar um destino para si mesma. Claro! Só que não é bem assim… É e não é. Porque tem sempre uma fatia mais profunda da história. A história aparente, a meta evidente da personagem (citando termo do escritor nacional André Vianco) é a primeira desculpa, o motivo desencadeador do restante do enredo, que esconde a história sutil ou a meta submersa (dobradinha de Vianco). Para o leitor ingênuo, a história aparente é a flecha da trama, que deve ser perseguida, resolvida e puf, tá tudo pronto!

Só que não é assim. É e não é… É, poque é o gatilho da trama. Não é, porque esconde os “verdadeiros”  motivos, outros conflitos, o tombo em queda livre das personagens, os dedos feridos escondidos pelos sapatos lustrosos. Está aí a história dentro da outra. A raiz de uma que nutre a outra.

Os três amigos que se reúnem mais de uma década e meia depois de se separarem em Porto Alegre, em Meia Noite e Vinte de Daniel Galera, não estão na capital gaúcha apenas porque o quarto integrante da turma foi assassinado, nem para narrarem apenas os diferentes caminhos que cada um seguiu. Dentro dessa teia, outras amarras te agarram. O retrato de uma geração, também é pano de fundo pra discussão de gênero, movimento político e até idiossincrasias emocionais de trintões, quase quarentões.

Se no universo literário uma história emoldura outra(s), na realidade também é assim. O cabelo arrumado mascarando a necessidade de causar uma boa aparência. As boas notas em nome da pressão de uma família banalizada. O sucesso profissional meteórico camuflando as origens humildes. Isso citando exemplos clichês, sabendo que na real é muito mais complexo. Como a garota boazinha que está sempre prestando atenção nas necessidades das pessoas ao redor, mas sem ter consciência, tem a maior dificuldade em estabelecer uma fronteira entre o outro e si mesma (não é bondade, é dificuldade!). O talentoso profissional, uma eficiente fera ligada 24 horas que lota a agenda disponível para o trabalho para não sobrar tempo às frágeis horas solitárias de lazer. Sempre a história dentro da outra.

Sempre a história dentro da outra. A história que interessa. A história que conecta. A história que contextualiza. A história que causa tensão. A história que enche a vida de emoção. Nas páginas e fora dela. Como um enredo funcional para novas tramas.

E com você, qual a sua ‘outra história’?

“Há duas histórias: a história oficial, mentirosa, que se ensina e, depois, a história secreta, onde estão as verdadeiras causas dos fatos. Uma história envergonhada.” (As ilusões perdidas, de Honoré de Balzac)

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Texto de Dany Fran e Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".