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Sobre regras, deusas malignas, troca de ideias e embrulho de emoções

“Toda vida é uma invenção própria. Não que ela não seja feita de fatos, de dados concretos, de eventos incontroláveis. O que é absolutamente uma criação própria é a forma como cada um olha para a sua vida. De fato, há uma só existência. Mas são várias as possibilidades de narrativas desta mesma existência.” (Eliane Brum)

Eu já falei dela, já emprestei outras de suas palavras, mas vou novamente me apropriar de sua fala porque sou apaixonada por essa mulher, Eliane Brum, que quebra regras e vira minhas ideias do avesso. “Mais difícil do que resistir à necessidade de certezas de quem está ao nosso redor, é resistir à nossa própria necessidade de certezas – abrir mão de nossos clichês pessoais”.

Pois então, esses dias estava ignorando batuques carnavalescos, o que há mais de uma década virou regra pra mim, me surpreendi mais que ouvindo, sambando marchinhas no aniversário de uma amiga. Voltar a gostar, se permitir mudar e abandonar velhas ideias.  O jeito que você vai narrar sua história, muda ‘A’ história. E trocar o enredo, ainda que sobre um simples gosto a favor (ou não) das marchinhas até uma discussão mais elaborada sobre erguer muros ou ampliar fronteiras; pode não ser o fim ‘DA’ história, mas o início de outra. Que pode ser testada na sua vida diária. Como, por exemplo, a releitura de um livro que estou fazendo e a confirmação de que não gostei mesmo do tal livro. Ou ainda novas leituras que poderão (literalmente) chacoalhar o olhar. Como o Castelo de Vidro, biografia de Jeanette Walls (o próximo da lista, depois de anos de espera) onde a autora narra em sua biografia a filha que se depara com a mãe catando lixo na rua enquanto ela segue para uma festa e sente um embrulho de emoções. ‘Embrulho’ capaz de romper ideias, regras e estereótipos. Claro que não o mesmo, mas também um embrulho de emoções eu senti hoje cedo, tomando café confortavelmente na sacada antes de pegar no batente e vi um moço, aparentemente da mesma idade que eu, catando lixo bem na frente do meu prédio. Aqui ou ali. Rompendo fronteiras, quebrando estereótipos, na vida real ou na ficção, óculos para nossos miopias. (Dany Fran)

“Feche os olhos, ela está lá. É tão antiga quanto os dias sobre a terra. Uma sombra que passeia livremente entre as mentes. E tal qual uma soberana absoluta, impondo a todos uma mesma conduta. E nós, frágeis e débeis humanos, obedecemos essa deusa maligna. E como se não houvesse nenhuma escapatória, marchamos pesarosos uma vida repetida, quando poderíamos sambar uma existência mais criativa.” (Kelly Shimohiro)

“As histórias se repetem até o nascimento de uma alma mais ousada. Avante!” (Irmãs de Palavra)

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Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.