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Retalhos da voz feminina

“Eva sussurrou para Afrodite que o mundo estava perdido. Afrodite clamou que Iemanjá intervisse. Iemanjá convidou as mulheres-focas para resolverem a situação. As mulheres-focas recorreram às bruxas, que voavam alto, muito ocupadas. As bruxas mergulharam nas camadas mais profundas da Terra e resgataram as almas femininas, que vagavam sem rumo. As almas femininas se puseram em marcha e espalharam-se nos quatro cantos da Terra, permitindo que as vozes femininas se desprendessem delas. E as vozes femininas, todas juntas, cantaram e rogaram. E flores brotaram. E crianças nasceram. E cores inundaram tudo. E o amor tocou a todos. E a dança nunca mais parou. E o trabalho vingou. E a esperança deu frutos. E a luta toda da criação recomeçou, costurando os buracos que encontravam no caminho.  E desde então, as vozes femininas nunca mais se calaram, na tentativa abençoada de dar um jeito no mundo. ” (Kelly Shimohiro)

“Tecidos novos, usados, sobras. Cresci aquecida pelas colchas de retalhos feitas por minha nona. Já gostei. Já desejei cobertas peludas. Já troquei, guardei e até reutilizei, quase todas. Das que ainda restam, apenas uma não está em uso. A última costurada pela dona Rita (minha nona) e dada pra sua afilhada. Mantenho protegida (do tempo? do uso? do quê?) no maleiro. Talvez, ela precise ser vista. Desprotegida. E hoje, mesmo no verão, quem sabe  minha cama ganhe um novo colorido.

As histórias das mulheres (e pra mim dos homens também) são como ‘colchas de retalhos’. Remendadas pra desnudarem nossas diferenças. E não escondidas pra cobrirem nossas desigualdades. Enquanto garotinhas aprendem na Síria matemática somando nos livros 3 bombas com 5 mísseis, não posso me contentar com o caderno da minha menina que soma bonecas com bolas. Enquanto o Ipea divulga que as mulheres trabalham pelo menos 7 horas e meia a mais que o sexo oposto pela dupla jornada, não dá pra ficar felizinha só lendo ou ouvindo sobre reivindicações femininas bem sucedidas.

Costurar hoje, e todo dia, palavras febris e férteis que vistam (ou pelo menos olhem) nossos verdadeiros desejos – de luta, sim! – de recriação, também! – podem não acabar com a devastação de muita injustiça; mas esfria o desnecessário e aquece o essencial!” (Dany Fran)

A voz feminina, retalhada e costurada, é a canção da criação. (Irmãs de Palavra)

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Fotos de Dany Fran, Biblioteca Pública Municipal Pioneiro Manoel Pereira Camacho Filho (Maringá-Pr)

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".