harry potter e as irmãs de palavra

E quem disse que a vida não é um conto de fadas

‘- Espelho, espelho, meu, há no mundo alguém mais bela do que eu?

O espelho respondeu:

– Sois a mais bela aqui, reafirmo, mas a jovem rainha é mil vezes mais bela.

Então, a malvada soltou uma praga e ficou tão horrivelmente assustada que não soube o que fazer. Contudo não descansou: sentiu-se obrigada a ir ver a jovem rainha. E quando entrou e reconheceu Branca de Neve, ficou paralisada de apreensão e terror. Mas o príncipe mandou esquentar sapatos de ferro ao fogo, apanhá-los com pinças na brasa e colocá-los diante dela. A rainha foi obrigada a calçá-los e dançar até cair morta.”

Essa versão do conto de fadas, ‘A Branca de Neve’, recontada pelos irmãos  Grimm, pode não ser exatamente a versão que você conhece. Pode não ter o final ‘e viveram felizes para sempre’ da Diney. Afinal, castigar quem te castigou, e com tamanha brutalidade, não é lá um final ‘feliz’! Mas se saltarmos dos contos de fadas para os contos reais, que final feliz encontramos? Ficar satisfeito por pagar uma merreca mais barata pela carne enquanto funcionários de frigoríficos estão perdendo empregos, famílias ficando sem renda, criadores apreensivos em acumular prejuízos com redução de abates, importadores voltando a negociar mas ainda duvidosos em levar uma ‘carne fraca’; é um final feliz para o jogo de propina no agronegócio brasileiro? Na verdade, virar um capítulo, encerrar ou começar uma história – na literatura e também na vida real –  é pra gente que imagina um mundo, um conto seu. É pra quem já teve derrotas ou ainda vai sofrer fracassos. Também é pra quem se dá bem e encontra um amor. Ou pra quem encara um espelho e se depara com alguém que não admira. Pra quem rala, cansa, desiste, volta atrás. Pra quem abandona expectativas e adota a ‘prontidão’. É pra quem SENTE. Porque, meu bem, como diria Clarissa Pinkola Estés, “a emoção não é uma mercadoria de plástico”. Por isso as batidas da tua história não podem ser descartadas, e ainda que a sua vida esteja mais pra um conto de fadas dos Grimm que da Disney, a sua magia pode ser real!’ (Dany Fran)

‘Contos de fadas são frestas criadas para movimentar nosso imaginário. E nós sabemos que somente um imaginário ativo e afiado é capaz de criar uma vida real intensa. Não uma mesmice boçal sem fim em sua repetição tediosa. Nas versões antigas (originais?) dos contos de fadas não encontramos a “pílula dourada”. As histórias são brutais, escandalosas, mal cheirosas, exageradas e deliciosas. Um fascínio de fantasia. Um treinamento seguro para as armadilhas da vida. Ouvindo histórias assim, podemos ficar mais alertas ao que nos cerca. Podemos deixar nossas mentes escaparem pelos terrenos sobrenaturais e alimentar nossa criatividade. Vamos alargando a dimensão do nosso poder inovador. Mas, quando nos fartamos de contos de fadas em suas versões modernas e educadinhas, modernas e recatadas, modernas e cheias de moral, trancafiamos a assombrosa aventura de uma história. E o que sobra? A cartilha dos bons costumes para ser seguida. Não há nenhum problema em histórias que existam para divertir (a diversão é o pão sagrado do espírito). Não há nenhum problema em histórias inverossímeis (a fantasia é a vitamina da criatividade). Não há nenhum problema em histórias brutais (a violência de uma história pode ser o escudo para perigos reais). No entanto, há muitos problemas em histórias criadas, ou editadas, para suprimir nosso ímpeto questionador e nos acomodar em versões patéticas de nós mesmos. Contos de fadas, sim!! Contos de fadas, cada vez mais! Só, talvez, tenhamos que ter o trabalho de garimpar os tesouros entre tantas maçãs envenenadas que nos oferecem.’ (Kelly Shimohiro)

harry potter e as irmãs de palavra

“Contos de fadas são o brigadeiro do dia. Sempre queremos mais um!”

(Irmãs de Palavra)

Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.