img-20161104-wa0004

Quem é o vilão da história?

“Do inferno

Sr. Lusk,

Envio para o senhor metade do rim que tirei de uma *mulier *gardei para o *sinhor pois a outra parte eu fritei e comi estava muito *gostozo. Posso li mandar a faca suja de *sange com que tirei ele se o *sinhor esperar um pouquinho mais.

Mi prenda quando puder, Mister Lusk ” (De Jack, o estripador, para George Lusk – Cartas Extraordinárias – *a grafia foi conservada exatamente como na carta original)

Das ruas de Londres para as páginas literárias, um dos seriais killers mais misterioso da história é um vilão épico. Como uma profecia maldita, não mediu brutalidade, nem fantasias mórbidas, para matar pelo menos cinco mulheres com mutilações e remoção de órgãos. Sempre na sombra da noite, o mesmo alvo: prostitutas, como a Mary Jane Kelly. Sem nunca ter sido pego, aguçou teorias e até inspirou a criação de outros vilões, inclusive na  literatura. Com poderes sobrenaturais (Drácula), ou desumanos (Big Brother – 1984) eles enganam, nos manipulam e provocam do fascínio ao ódio. Porque, no fundo, gostamos de torcer contra eles  e quando nem percebemos, estamos acompanhando seus passos até o golpe fatal. Que pode acabar com a aventura ou estraçalhar seu dia. Do Angulimala (fábula do assassino colecionador de mil dedos descrita nos milenares sutras da tradição budista Teravada – Coleção Mundo Estranho) aos brasileiros que recentemente mataram um argentino em uma briga de bar, ou a ‘guerra santa’ que transformou a Síria em um campo de batalha, inclusive com ataque químico; o extremismo, o abuso ideológico ou a prática de injustiças cegam pela raiva. A escolha planejada, ou não, imortaliza um vilão. Até que o parem.  E aí, já era, coloca-se um ponto final na história. Nem que seja de interrogação, ou exclamação! “(Dany Fran)

 

Um lado sombrio cresce, tomando conta do Vilão. Qualquer esforço para controlá-lo é em vão: “As sombras estão me devorando, eu sei. Deixei que isso acontecesse. Eu simplesmente não pude evitarTalvez seja impossível lutar contra as próprias tendências. Dê o nome que quiser a elas: genética, doença, herança, carma, história familiar, perturbação mental, obsessão espiritual… Prefiro chamá-las de tendências. Isso eu posso compreender. Elas revelam você, quem é você de verdade. Eu não gosto  nada do que está acontecendo comigo. Eu não gosto de quem estou me tornando, só não consegui me desviar. Pra onde eu iria?” (Agatha Guiller em O Sombrio Chamado) 

O Vilão se vê como herói: “Eu sei de todas as justificativas deles. Eu sei que uma guerra não é um acordo diplomático. Eu sei que heróis condecorados são assassinos em série. Eu sei que um exército de defesa é tão cruel quanto seu inimigo. Às vezes até mais. Eu sei que quando a guerra é vencida, ninguém se importa com isso. Só com a paz imposta com o sangue alheio. Mas agora eu sou o outro lado. O lado escuro da guerra. O lado que não tem direito à defesa. O lado que não recebe perdão pelas atrocidades que cometeu. O lado ao qual não é concedido a benção do esquecimento de seus pecados. O lado que tem que pagar para sempre. Para sempre… Agora eu sou esse lado e eu sei que ele também é pisoteado.” “Não há heróis em uma guerra. Só existe o lado dos vencedores e o lado dos vencidos. A única diferença entre exércitos inimigos é essa.”(Ágatha Guiller em O Sombrio Chamado)

O Vilão , em algum ponto de sua história, foi abandonado e maltratado. Ele para sua vida nesse ponto. Para sempre abandonado e maltratado. Ele vive para a vingança, só para a vingança: “Eu sabia que  ninguém voltaria para me salvar. Eu estava sozinha, eu não tinha nada, não sobrou ninguém, todos foram embora… Só eu fiquei para trás. Eu passei fome, eu andei sem rumo por tanto tempo… Mas eu nunca vacilei, eu nunca duvidei. Eu sou a Grande Líder Invasora. Eu sempre soube disso. E agora, o meu tempo chegou. E todos eles vão morrer.” (Dan Goy em O Sombrio Chamado)” – Kelly Shimohiro

 

“O vilão da história pode estar mais perto do que você imagina. Ele poode ser você.”

                                                                             (Irmãs de Palavra) 

vilão

Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.