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Senso de admirar, ou não

Cultos místicos falam do maravilhamento infantil como um estágio esplêndido a ser alcançado: a mente iluminada. Olhar o mundo com olhos de criança. Curiosos, famintos, espantados. Uma espécie de nirvana da consciência.
A literatura usa o termo “sense of wonder” principalmente para determinados gêneros, como ficção científica, fantasia, terror. Referindo-se ao ENCANTAMENTO que algumas histórias provocam no leitor, criando um clima de sedução. Uma espécie de magia, que gruda o leitor nas páginas.
A ideologia capitalista vende a sensação de maravilhamento como objeto de consumo. Neste sentido, você alcança a epifania desejada comprando, comprando, comprando. E assim, vendem carros mais caros, casas maiores, computadores mais potentes. Cada vez mais, mais, mais. Drogas prometem o “sense of wonder”. Sexo maluco convida ao “sense of wonder”. Mentes perturbadas e doentes buscam o “sense of wonder” em crimes, abusos e outras atrocidades. Esportes radicais exageram na adrenalina, sedentos pelo “sense of wonder”. Rejuvenescimento eterno oferece o “sense of wonder”.
Porque é como uma necessidade primitiva nossa. Um instinto inconsciente e voraz. Queremos sempre ser o herói da história, podendo então, gozar dos poucos – mas fabulosos – instantes de glória.
Depois, o que será que sobra?
Essa épica glória não precisa (e cá entre nós, nem pode) restringir-se ao momento espetacular que esperamos ‘vidas’ pra chegar. Mas ganha fôlego, é arrebatada por um momento ímpar, que nos tira do trilho, grita e bate na cara do nosso cotidiano porque é tudo, menos ele! E como admirar esse instante, essa ‘coisa grande’ que desejamos e até praguejamos, é plural! Pra sinhá de Graciliano Ramos, em Vidas Secas, o sonho ‘grande’ era uma cama. Estranho pra você que é ‘de berço’ ? A cadela Baleia morreria de admiração por um ‘grande’ osso! Ok, ela é um bicho! Mas, vamos lá… em pleno sertão ela é, pelo menos, um animal danado de humanizado! E você, humano? O que diria do Papa Francisco, entre tantos problemas e necessidades pra se preocupar, criar uma lavanderia do Papa! Pequeno? Sabão e roupa limpa para os sem tetos!  Grandioso! Talvez não pra você com sua própria máquina cinco passos do seu nariz. Mas pra quem vive na rua, ao redor do Vaticano, o papa Francisco resgatou o gosto de estar entre ‘pares’, limpo! Putz, que baita ‘sense of wonder’!
Isabelle, personagem de O Rouxinol, de Kristin Hannah; arrisca, com furor, seus passos destemidos pela França sitiada pelos nazistas, para proteger desconhecidos e vencer  não apenas as misérias da maldita segunda Guerra Mundial. Mas a maldição de sua vulnerabilidade ao abandono. Acabar com sua suposta invisibilidade, isso sim, seria alcançar algo esplêndido. Nem que isso signifique se afastar, de vez, de quem ama. Já para sua irmã, Vianne, menos intempestiva e mais medrosa, o encantamento admirável é, ainda que aterrorizada, enfrentar a fome e qualquer outra escuridão da guerra, até mesmo colaborar com invasores nazistas, para proteger e continuar perto de quem ama.
As irmãs, você e nós. Todos com seu próprio, distinto, ‘sense of wonder’. E com eles, heróis ou não, quem ‘diabos’ estamos nos tornando? Famintos de quê? Espantados com o quê? Curiosos pra quê?
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Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.