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DÊ UMA PAUSA – precisamos de esperança

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Suicídio é dor. Dor por todos os lados. Dor antes e  dor depois. A dor de não ter mais pelo que esperar.

O sucesso da série “Thirteen reasons why” abriu um espaço no cotidiano calado para temas muito difíceis de serem enfrentados. Baseado e inspirando em um livro de título homônimo (lançado em 2007, de autoria de Jay Esher), a série que recebe opiniões e críticas diversas, tocou em um assunto que precisa de diálogo. O suicídio adolescente.  A literatura, o cinema e outras artes podem chamar olhares do mundo a sua volta sobre as questões mais difíceis que  nos adoecem. Mesmo se você tiver opiniões contrárias do autor, ou do desfecho da série/filme, você vai parar um momento para repensar suas crenças e atitudes sobre o assunto. E isso, de cara, já é um bom propósito.

Quando o escritor Seicho Matsumoto, em 1960, lançou o livro Kuroi Jukai, no qual narra um suicídio na floresta de Aokigahara, certamente não imaginava que muitas pessoas iriam até essa floresta para cometer na realidade o que havia acontecido na ficção escrita por ele. Aokigahara é conhecida atualmente no Japão como a “Floresta do Suicídio”. Autoridades responsáveis colocaram placas pela área tentando desestimular o feito. Mesmo assim, mais de cem corpos são encontrados anualmente lá.

A tragédia shakeaspereana mais famosa – Romeu e Julieta – conta uma história de amor de fim trágico e infeliz. O suicídio duplo dos amantes, decorrente de uma confusão sombria e um falta de esperança em ficarem juntos. No fim, o desperdício de duas jovens vidas apaixonadas.

Virgínia Woolf, autora aclamada, em suas últimas palavras escritas em carta para seu marido, despede-se da vida sem nenhuma esperança. E depois, suicida-se.

 “Meu Muito Querido: 

Tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. (…) Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida.
Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.
Virgínia Woolf  (março, 1941).”

No clássico francês Madame Bovary (1856), Gustave Flaubert nos apresenta uma personagem iludida por um mundo imaginário que projetou sobre o amor, e que se vê cada vez mais emaranhada em confusões, até que o fim é seu derradeiro suicídio. “Lançou vigorosamente grande pá de terra; e a madeira do caixão, ferida pelos seixos, fez o formidável ruído que nos parece ser a ressonância da eternidade”

Nas histórias ficcionais em que o suicídio aparece, podemos sentir quase fisicamente a sensação de desamparo das personagens suicidas. E o pior de todos os desamparos, ficar desamparado de si próprio. A dor de viver sem esperança. Sem vontade. Sem desejo.

Um sombra pesada que ecoa no absoluto silêncio alheio. Pedras no bolso que derrubam qualquer riso. Uma rua sem saída pra quem não sabe que o próprio trajeto pode ser uma saída. A festa que acaba. O personagem que tenta acertar, mas no fim apaga os seus sonhos. Nas tramas ficcionais ou nas histórias reais, o buraco negro cavado pelo suicídio deixa marcas de dor pelo mundo.

A ficção, de tempos em tempos, aborda o tema. Não porque quer estimular que o suicídio se propague. Porque existe pessoas desesperadas na realidade. Pessoas que não vêem mais nenhuma alternativa. Estando atrelada ao mundo, a ficção vai sempre abordar temas da existência humana. Suicídio é um deles. Se as palavras de um livro fossem terminar com um final feliz, no meio do caminho, a personagem suicida, encontraria algum apoio (dentro e fora de si mesmo) e, momentos antes de cometer o ato, desistiria, ou seria impedida e, de alguma forma, teria novamente a esperança pela vida. E depois, muito tempo depois, conseguiria perceber que ainda há motivos para continuar.

Mas nem sempre o final é feliz. Nem na vida, nem nas obras ficcionais. O personagem suicida precisa da coragem para pedir apoio. O mundo a sua volta, precisa prestar atenção e estender a mão. Tomara que existam linhas mais felizes. Para todas as pessoas. Linhas de esperança.

texto Irmãs de Palavra

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Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.