de uma pausa

DÊ UMA PAUSA. A criança quer brincar.

de uma pausa

A criança quer brincar.

A criança não morreu. Ela só encolheu.

No fundo psíquico de qualquer personagem, ela está lá. E claro, ela sempre dá um jeito de aparecer. Se você prestar atenção, na real, isso também acontece com você.

A criança que sofre, que não encontra no mundo um jeito de superar os abusos sofridos, ou o descaso e a falta de amor vivenciados na infância, faz barulho na cabeça do seu ‘eu’ adulto. Pode até desabrochar como um psicopata cruel. No eletrizante triller de Jo Nesbo, O boneco de neve, um psicopata é autor de uma série de assassinatos, conectados por um fio, um tema que o assassino mantêm em sua mente desde a infância. É a criança dele aparecendo e querendo vingança.

A criança mimada, aquela que só ouve sim, exige cada vez mais das pessoas à sua volta. Na saga Harry Potter, esta criança está representada pelo primo trouxa de Harry, Duda Dursley.  A criança que  ele foi, nunca sai de cena. Mesmo quando se torna um adolescente, Duda desponta como o garotinho inconsequente que nunca deixou de ser.

A criança rebelde e contestadora que Marjane Satrapi foi, não abandona a sua vida adulta. Em Persépolis, autobiografia em quadrinhos da autora, Marjane estampa sua infância, adolescência e início da vida adulta. E a criança dela está lá, nos principais momentos. Na adolescência, quando a pressão social e política aumentava, Marjori alcançava sua criança interna e dava um jeito na situação opressora. Na vida adulta, quando precisou de coragem para pedir o divórcio, a Marjane criança (verdadeira e corajosa) dá à Marjane adulta  a força necessária para enfrentar a situação.

Na série Greys Anatomy, a personagem protagonista que dá nome ao título da trama se vê atormentada pelos fantasmas da infância. Ao temor do abandono. E segue repetindo na vida adulta, as reações inadequadas que aprendeu na primeira fase da vida. É a criança interior pedindo outra chance.

A criança sempre está lá. Com separações, encontros, realizações ou decepções. Quando a gente cresce, ela só encolhe. E quando vê uma fresta, volta à vida. Se puder ser espontânea, divertida, corajosa, destemida, ela será. Se precisar curar seus medos, inseguranças, traumas, ela agirá até ser acolhida, restaurada e curada. Amir e Hassan, personagens amigos no romance O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, denunciam como a trajetória na infância acompanha nosso destino na vida adulta. E pode assombrar ou clarear nossas escolhas pra sempre.

Como na ficção, na realidade as histórias estão recheadas de gente ‘grandinha’ nutrida pela criança que foi e que nunca deixou de alimentar seus passos. Por quê deixar de dar atenção à ela? Diferente de virar um Peter Pan, às vezes é só dar uma pausa e deixar a ‘criança’ brincar.

texto: Irmãs de Palavra

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Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".