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DÊ UMA PAUSA – Baniram os livros do mundo!

arte IRMÃS DE PALAVRA 1

E preste atenção: Baniram os livros do mundo!

Era tanta confusão no mundo, uma barulheira geral, tanta coisa para ver, tanto tempo gasto online que, sem que percebêssemos, os livros caíram fora de fininho.

Das casas, eles fugiram rapidinho. Já não havia espaço para guardá-los. Foram todos enxotados, doados, descartados. As estantes logo foram ocupadas: bibelôs, tabletes, smartphones, smart TVs, playstations assumiram o comando.

Empresas foram as primeiras a se livrarem dos livros. Sem demora! Porque tempo é dinheiro e o recado estava dado: Sejamos rápidos, colaboradores! Livros não!

Cafés, pubs, padarias, restaurantes, todo local onde as pessoas se reuniam também retiram os livros de circulação. Usuários e clientes nem notaram. Livros eram – quase – só objetos de decoração.

Representantes de todas as religiões assinaram um acordo contra os livros. Exceto a Sagrada Escritura, livros passaram a ser indesejados desde então.

As escolas e universidades tentaram resistir. Mas com tanta pressão, até o ambiente acadêmico se desfez do livro sem muita hesitação.

A situação só beirou ao caos nas bibliotecas. As paredes pareciam defender como soldados bem armados. Mas o povo invadiu, saqueou, depredou e pôs fogo em tudo.

Assim, quase com a mesma rapidez que se consome e deleta uma história pelo mobile, o livro sumiu do mundo. E como uma maldição, as mentes humanas se esqueceram de seu valor, distraídas por séries de TV, tantos filmes em cartaz,  snaps, faces, whatsapp, instagran e coisas assim.

Ninguém sentiu falta de levar um livro para relaxar numa praia. Ninguém mais leu uma história antes de se deitar. Ninguém mais passou o tempo em transportes e espaços públicos com um livro na mão. Ninguém mais pegou uma criança no colo e viu seus olhos sorrirem ao virar as páginas. Ninguém mais recorreu a livros para pesquisas. Ninguém mais deu livro de presente. Ninguém mais ganhou livro de presente. Ninguém mais teve contato com uma história longa e cheia de detalhes. Acabaram os clubes de leitura, as horas à sós rodeado pela multidão escrita nas páginas, as viagens por lugares incríveis sem tirar o pé da rede. Tudo isso acabou.

E depois de um tempo, que nem foi tão longo assim, as flores murcharam nos jardins, porque as pessoas se esqueceram de aguá-las. As panelas enferrujaram nos armários das cozinhas, já não eram mais usadas. As cidades ficaram cinzas, sem criatividade nem cor. A ciência estagnou e a medicina não avançou. A memória humana atrofiou e a imaginação definhou. E nenhuma pesquisa encontrou um novo antídoto para uma ou outra coisa. As famílias desistiram de se reunir, as conversas tinham ficado vazias e as pessoas não se interessavam mais umas pelas outras. As igrejas e templos foram deixados de lado, as pregações já não convenciam e os fiéis sumiram. As escolas e universidades entraram em colapso, os estudantes pararam de aprender até que nunca mais pisaram em  salas de aula. Empresas faliram e os campos ao redor da Terra secaram, todos improdutivos. Acesas, somente as fogueiras no meio das praças. Nunca se soube o que alimentava as chamas. Os homens ziguezagueavam à esmo, as mulheres perderam o viço e a profundidade, as crianças envelheceram rapidamente. E assim, quase sem ninguém notar, quando o mundo baniu os livros, a Terra sem as histórias, recusou-se a continuar. E foi perdendo a luz, perdendo, perdendo… Até, enfim, apagar.

  • texto: Irmãs de Palavra

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Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".