DÊ UMA PAUSA, você acaba de ganhar um bilhete de viagem!

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Você acaba de ganhar um bilhete de viagem!

Você não tem que saber para onde quer ir. Não o tempo todo. Você não tem que continuar parado aí. Não para sempre. Marjane Satrapi, uma escritora iraniana, aos 10 anos, em 1979 (mesmo ano em que uma das Irmãs de Palavra nascia), perdeu lugares que amava (e pessoas). Foi, por exemplo, estudar em salas de aula só para meninas. Começou a sair de casa, obrigada a cobrir os cabelos e a maior parte do rosto. Tudo isso imposto, totalmente à revelia de seus desejos e valores. Ela não queria nada disso, foi obrigada. Ou fazia ou morria. Marjane presenciou o início da revolução islâmica, que colocou o Irã, no regime xiita. Teve que abandonar seu país, sua família, pegar carona em outro destino. Se engana quem acha que não pode mudar o próprio passo. Às vezes, você é obrigada a mudar tudo, a sacrificar tanto, a perder a própria liberdade. Se engana quem acha que quadrinhos é só para criança, ou que HQ reserva espaço exclusivo para humor e super-heróis. Persépolis, uma graphic novel autobiográfica, escrita por Marjane Satrapi (Companhia das Letras, 2007), desloca nossas certezas. Só que deixa uma, muito, muito, muito mais forte: salve salve a liberdade de expressão! Tem bilhete melhor que esse? O resto é história (e a gente adora!).

Texto das Irmãs de Palavra

persépolis

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Dê uma pausa, somos muito importantes!

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Olavo Bilac e nós, somos muito importantes!

Não somos nome de rua nem de prédio algum, mas não se engane, nós somos muito importantes. Não convém confessar nosso segredo para tal proeza, só que vamos falar mesmo assim (não ligamos, nós queremos te contar). É que todos os dias, tomamos goles bem grandes de um tônico secreto. Dizem mesmo que ele devia ser proibido. Porque contamina seu sangue e então tudo está perdido. Você começa a ouvir as estrelas e a sonhar. E quem é capaz de sonhar, é sempre muito, muito, muito importante.

Olavo Bilac sabia disso.

“Ouvir estrelas! Certo, Perdeste o senso! (…)

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.” (Olavo Bilac)

(amor é o nome do tônico, mas para funcionar, é prescrito doses diárias, NÃO SE ESQUEÇA)

O aspirante ao bisturi e aos juris, que se apaixonou mesmo pela pena capaz de expressar sua habilidade com as palavras; o príncipe dos poetas brasileiros, rigoroso com a estética dos seus sonetos que virou cronista militante e cheio de humor, transitou – e se esbaldou – pelas contradições da vida. Olavo Bilac – nome de rua, prédio, conteúdo do Enem – contrariou a lógica do seu tempo. Amou muito as palavras e as espalhou com tanto afinco, que deu no que deu. Foi aclamado e amado em vida. Gente muito importante! Hoje comemoramos o centenário de sua morte e reconhecemos seu legado: feito com amor, todos somos muito, muito importantes. O resto é história (e nós adoramos!).

Livro da semana: Contos para velhos, Olavo Bilac.

Texto das Irmãs de Palavra

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DÊ UMA PAUSA – Vamos falar do livro da semana – é sobre amizade

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Vamos falar do livro da semana – é sobre amizade

A autora é nossa amiga desde o século passado (sim, isso é possível!). Nos conhecemos num mundo mais ou menos parecido ao da série Stranger Things, bem anos 80. Cidade pequena, all star colorido, Madonna, festinhas de garagem, Top Gun, a  série Vagalume e a melhor descoberta de todas: tínhamos amigos que faziam qualquer coisa valer a pena. Qualquer dia ser uma aventura. Qualquer problema ser derrotado. Qualquer sonho virar realidade. Éramos todos importantes!

Aquela época passou. A amizade não. E nem a certeza de que a velha descoberta continua sendo a melhor de todas: amigos fazem qualquer coisa valer a pena.

“Ela encheu a única taça da mesa e brindou. ‘Aos vínculos que perduram o tempo, aos novos encontros e qualquer outra mudança que se meta em nossa frente’.”

O dicionário diz que vínculo é aquilo que ata, liga, vincula (duas ou mais coisas). As Irmãs de Palavra preferem sua própria definição: vínculo liga duas ou mais histórias. Lendo Fragmentos de Pensamentos (Madrepérola, 2018), de Tryssia Carmo, você não vai compreender a etimologia de vínculo, mas pode sentir (o que é muito melhor!) a importância dessa palavra. A importância da família, da cidade em que você nasceu, a importância dos amigos de infância, dos sonhos que guardamos desde criança. Não importa que a vida mudou, que você se decepcionou e que agora saiba que é um pouco mais difícil do que imaginava. Dentro de nós, sabemos a verdade: amigos fazem qualquer coisa valer a pena! Qualquer dia ser uma aventura. Qualquer problema ser derrotado. Qualquer sonho virar realidade. Isso acontecia nos anos 80. E continuará assim até o FIM. O resto é história (e nós adoramos!)

Texto das Irmãs de Palavra

Tryssia

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Dê uma Pausa – O mundo acabou. Não o seu nem o nosso. Mas acabou.

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O mundo acabou. Não o sou nem o nosso. Mas acabou.

“Aline abriu os olhos antes do despertador tocar. Pegou o Iphone de cima de ‘Minha vida fora de série’, em seu criado mudo, e encarou o visor sem nenhum retorno do Dani. Apenas o registro 06:57, sexta-feira, 30 de novembro de 2018.  Hesitou alguns segundos. Jogou o celular no edredom macio e pulou da cama. Com a boca cheia de espuma da pasta de dente sorriu pro espelho ao ver sua barriga, ainda esbelta. Três bochechos. E ducha ligada. Enquanto o banheiro virava sauna, Aline pensou novamente em Dani antes da descarga. Meu Deus, como ela precisava falar com ele! Quando foi jogar o papel higiênico, e encarou a fitinha com as duas listas absurdamente vermelha no fundo do lixo, deu outro pulo. Vestiu seu jeans (sem tomar banho) e a primeira blusinha branca na pilha de muitas outras. Passou pela sala de visita, de estar, de TV, pela cozinha, até chegar ao hall despercebida. O pai falava ao celular na mesa do café. A mãe também. Em quinze minutos Aline estava, sozinha, na estação. Apesar dos 15 anos recém completados; loira, de olhos verdes, com dinheiro na carteira e peitos grandes, ninguém barrou Aline, que embarcou às 8h55 pra Barbacena. Ao sentar na poltrona 7, sorriu para o homem que estava ao lado enquanto tentou mais uma vez falar com Dani, antes de bater na porta da casa do pai do filho que esperava.  

“Rafael acionou a soneca do maldito despertador que o chamava pro inferno do trabalho que pagava seu aluguel. Mais cinco minutos antes de levantar o esqueleto. Toda sexta-feira o mesmo dia, em Barbacena. Toda vez o mesmo desejo, não ir. Rafael se arrastou bocejando pra estação. Bilhete seis. Tanto faz, obrigado! Os olhos baixos não notaram o sorriso da loira que sentou bem ao seu lado. Calado virou pra janela, fitou o cerrado mas não enxergou nenhuma Magnolia bem diante do seu nariz”.

Aline, uma adolescente grávida, e Rafael, um quarentão depressivo; são personagens fictícios e atuais. Mas se fossem reais e vivessem em um passado recente, poderiam – de verdade – serem embarcados no trem para Barbacena, com parada no Colônia. E nunca mais voltarem para suas casas. Colônia foi um hospital criado pelo Governo mineiro no início do século passado para atender pessoas que sofriam com doença mental. Acabou como depósito de gente. Jovens solteiras grávidas. Depressivos. Viciados. Crianças portadoras de síndromes. Mendigos. Os desviados do padrão de excelência de uma cultura excludente e cruel. Muitos que incomodaram, foram condenados a uma vida desumana.

Mais de 60 mil pessoas morreram neste hospício. Mais de 1800 corpos foram negociados com faculdades de Medicina, por pelo menos 600 mil reais. Mais de 70% dos internos não tinha diagnóstico de doença mental. Mais que números, um verdadeiro holocausto, que a jornalista Daniela Arbex deu voz no livro-reportagem ‘Holocausto Brasileiro’ (Geração Editorial, 2013) e depois continuou dizendo em um filme da HBO e Vagalume Filmes (2016), baseado na obra.

Claro que o final do ano de 2018 está chegando e queremos falar das henas, de chaminés de onde caem presentes mágicos, do bom velhinho e das luzes nas cidades encantadas. Das compras de Natal e dos perus. Assuntos interessantíssimos! Mas o mundo acabou. Não o seu nem o meu. Mas acabou para os prisioneiros do Colônia, pelo menos para a maioria deles. E a gente sabe que as histórias gostam de se repetir, até que o mundo não precise mais delas. E talvez, só talvez, ainda sejamos os mesmos. Aqueles que jogam a “sujeira” para baixo do tapete, para ninguém ver. A casa arrumada, perfeita. A família tradicional e do bem, sagrada. Os cidadãos exemplares, em fila. Todos juntos cantando velhos hinos de Natal, mas que surpresa se abrirmos seus porões, mas que surpresa! O resto é história (e nós adoramos!).

Texto das Irmãs de Palavra

holocausto

 

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de uma pausa

Dê uma pausa – sim, queremos castelos. O problema é que, quase sempre, eles são feitos de vidro.

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Sim, queremos castelos. O problema é que, quase sempre, eles são feitos de vidro.

“O pai queria os dias da mulher e dos filhos sem muros. Livres. A filha, pequena, queria o conforto de um endereço fixo. Ele queria que os filhos aprendessem vivendo aventuras na estrada. Os filhos queriam ir para uma sala de aula com roupas limpas. O pai sabia, e gostava, de não ser como todo mundo. Os filhos tinham vergonha de viver tão diferente do resto.  A mãe sonhava com o pai. Sobravam livros. Faltava comida. Tinham muitos risos e todas as estrelas do céu. Mas dívidas também. E perigos reais. Enquanto ele sonhou com um castelo de vidro, os filhos acordaram para outra vida. E foram embora. A mãe ficou. E depois, sobrou.”

O Castelo de Vidro,  Jeannette Walls, editora Nova Fronteira, 2007. Um livro de memórias (também tem o filme baseado na história da família da jornalista e escritora norte-americana Jeannette Walls) fala do perigo de uma história ‘só’. A história nunca é mesmo uma só. Nem a direção certa. Nem a da Jeannette nem a sua. Esse é um livro que acorda você, te faz desejar criar um lugar no mundo. O seu lugar. Não o do seu pai ou da sua mãe, não o dos filhos ou irmãos. Nem dos amigos, vizinhos, príncipes ou princesas. O seu lugar. Seu.

Sim, sonhamos com castelos. O problema é que, quase sempre, eles são feitos de vidro. O resto é história (e nós adoramos!).

Texto Irmãs de Palavra

(Ah, sobre a nossa foto, é que estivemos num castelo este ano e, bem, é mesmo encantador. Mas não, obrigada. Foi só de passagem!)

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DÊ UMA PAUSA – tempos sombrios estão chegando…

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Tempos sombrios estão chegando…

E estão vindo rápido. Cada vez mais rápido.

Pode ser através de uma manchete de jornal, uma mensagem de WhatsApp ou um sinal dos céus; um grito no escuro, ou mesmo um sonho devastador. Não importa, o lado sombrio dos contos de fadas nos persegue há milhares e milhares de anos. E em algum momento, eles, finalmente, irão nos alcançar. E então, você terá que enfrentar o mundo, o seu mundo. Você terá que tomar suas próprias decisões. Sem fantasiar ou se enganar.

É assim desde os tempos mais remotos. Os homens contam (e vivem) histórias assustadoras.

Humanos ou feras? Crianças perdidas ou abandonadas à própria sorte na ‘selva’? Garotinhas que não obedecem os pais ou criaturas canibais? Amantes irresistíveis que te salvam do ‘sono’ profundo ou príncipes encantados que estupram a bela enquanto ela dorme? Reis benevolentes ou tiranos insanos?

‘ERA UMA VEZ’… Karin Hueck tinha razão em ‘O lado sombrio dos contos de fadas’ – As origens sangrentas das histórias infantis (Super Interessante, 2016), basta estalar essa frase nos seus ouvidos para que o leitor passe a habitar um mundo fantástico. E a acreditar nele e a defendê-lo com unhas e garras. É assim que acontece. O ser humano tem uma propensa queda pela imaginação criativa desde o começo do mundo. O que é maravilhoso, histórias inacreditáveis nos enche de potência, de coragem, de força e de vontade. De fé. Seremos os mais bravos guerreiros! Mas como dizem por aí – e talvez seja até verdade – tudo tem o tal lado “B”. Nos contos de fadas, são os monstros de duas cabeças, feras sanguinolentas, o lobo mau, buracos que não têm fim, bruxas que comem criancinhas. Na vida real, temos as contas que não têm fim, fake news, ditadores, assassinos, gente sem escrúpulo espalhando o medo, o preconceito e o terror pelo mundo. Karin Hueck defende a utilidade disso nos contos de fadas: “Quando uma criança ouve ou conta uma história sombria, ela mergulha no mundo da fantasia. Os enredos violentos seriam, então, um treino para a vida futura. Em vez de ir para a floresta enfrentar lobos e bruxas, a criança simula o perigo dentro da sua cabeça, mas ainda em segurança. Segundo essas teorias, seria algo parecido com o simulador de voo usado pelos pilotos: em vez de correr o risco de se espatifar no chão, a aula é feita em um ambiente seguro”.  O problema é quando o perigo foge das páginas e assume o mundo real.

Ainda que o faz de conta seja mais sombrio que sua realidade; você é tentado e até gosta de imaginá-lo e, às vezes, de habitá-lo. Porque as versões mais obscuras das histórias nos colocam mais próximos de nossa própria humanidade, que sempre foi e sempre será, cercada de perigos por todos os lados.

E foram felizes para sempre”, como as histórias podem insistir nessa bobagem? Talvez seja só uma brincadeirinha, um jogo de palavras. Eles não foram felizes para sempre, foram fortes para sempre. Eles lutaram. Para sempre. Sem fraquejar. Para sempre. Resistiram. Para sempre. Não há brincadeirinha alguma nisso, nem jogo de palavras. O resto é história (e nós adoramos!)

Texto das Irmãs de Palavra

Nos despedimos com um “continho” inocente dos lendários  Irmãos Grimm, em ‘O pé de zimbro’.  Coisa de criança: “ERA UMA VEZ… um casal que queria muito ter filhos. Quando eles finalmente conseguiram gerar um menino, a mãe morreu. Logo o pai se casou novamente e teve uma filha com a nova mulher, que odiava o enteado. Um belo dia, quando o menininho voltou da escola, a madrasta perguntou se ele não queria uma maçã, e o mandou buscar a fruta de dentro de um pesado baú. O menino se ajoelhou, abriu o baú e – pimba! a madrasta fechou a tampa sobre sua cabeça, que saiu rolando pela casa. Desesperada, a mulher botou o corpinho do menino sobre uma cadeira, equilibrou a cabeça por cima e enrolou um cachecol ao redor do pescoço para disfarçar. Então ela chamou a filha. ‘Marlene, seu irmão não quer dividir a maçã com você. Dê-lhe um tapa na orelha’, disse. A menina obedeceu, e a cabecinha do irmão rolou pelo chão. ‘Marlene, o que foi que você fez?’, gritou a mulher. Então, a madrasta picou o corpo do filho e fez um cozido com ele. Quando o pai chegou, ela serviu o ensopado. ‘Mulher a comida está deliciosa’. “

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