harumaki 3

Dê uma pausa para Haruki Murakami

de uma pausa

para Haruki Murakami

“Eu não tinha a intenção de ser escritor, não costumava escrever e, certo dia, de repente, comecei o primeiro romance (ou algo parecido com isso)”. Palavras de um romancista que, além de histórias de ficção, nos oferece um livro que nutre, despretensiosa e claramente, quem se interessa pela escrita. Haruki Murakami em ‘Romancista como Vocação’ (2015), relata um pouco de sua trajetória como escritor e nos empresta seus olhos e desejos sobre esse ofício. Para ler Murakami, abandone todas as ideias preconcebidas de como um romance tem que ser. Romancista como Vocação vai desconstruir você.

Escrever exige, nas palavras do autor, velocidade baixa e  marcha lenta. Um trabalho cheio de rodeios e que demanda mais do que tempo, você precisa sentir a força concreta das palavras. Elas não podem ser apenas corretas em gramática e técnica, elas precisam comunicar emoção. Emoção verdadeira e genuína. Marcha lenta para essa escalada de escrever, transcrever e reescrever, traduzindo seu mundo submerso para o leitor.

Logo de cara, o autor aborda um ponto controverso: qualquer um pode escrever um romance.  E por que não? Se tiver disposição para descer até as trevas do interior da sua mente, escrever o que sente, explorar novos e desconhecidos territórios, o sujeito pode se meter a escrever um romance. Por que diabos alguém que deseja, não pode criar uma história? Devemos repensar então a vocação. Ou melhor, dar à ela o status de democracia. Todos têm direito.

À medida que Murakami foi se dedicando aos seus romances – primeiro conciliando com outros trabalhos, escrevendo na mesa da cozinha, no hotel, onde quer que estivesse; começou a seguir um ritmo próprio e acreditar ferozmente no vigor (livre) da língua.  Quanto às críticas sobre suas obras, diz repousar no inevitável. “Então, vou escrever livremente o que eu sentir, o que vier à minha cabeça abandonando ideias preconcebidas de que romance tem que ser assim, de que literatura tem que ser assim”. Oferecer ao leitor o melhor que suas habilidades lhe permitem e aceitar as críticas em silêncio. Elas virão de qualquer maneira. O compromisso do escritor não é com os críticos, é com o leitor.

Se o escritor tem alguma obrigação, essa é de CONTINUAR escrevendo obras com cada vez mais qualidade e originalidade. Isso exige muita leitura (óbvio). Mas também, muita vida. Hábitos de observar os detalhes. De não tirar conclusões rápidas. De não julgar.  Somente debruçar-se ao material que o cotidiano lhe oferece. Mais que qualquer técnica, essa observação cuidadosa e não taxativa, é o plasma da escrita.

Já a imaginação – as gavetas que abrimos da nossa mente – essas devem ser usadas com abuso e regularidade. Surge a ideia. E a história progride quando personagens de diferentes tipos agem de formas variadas, pegam na mão do autor e o guia para lugares inesperados, seguindo, colidindo uns com os outros. Verossímeis, mas não previsíveis. Assim a narrativa se amplia de forma ‘natural’.

“Quando o escritor cria uma obra, em certo sentido, uma parte dele também está sendo simultaneamente criada.”

Sabiamente, Haruki insiste em dizer “Estou falando apenas do meu caso”. Talvez, o que ele queira dizer com isso é que cada escritor terá que debater-se em si mesmo até conseguir encontrar seu jeito genuíno de narrar. Se fôssemos mais pretensiosos, diríamos que na vida, cada pessoa também teria que debater-se em si mesmo até conseguir encontrar seu jeito genuíno de viver. Mas isso já é outra história. Por enquanto, ainda impera os manuais de como se escrever um livro perfeito e empolgante. Ou como você deve agir (onde ir, o que comprar, o que pensar) para ter uma vida “perfeita e empolgante!”

Ainda bem que existem alguns ‘Harukis’ por aí, ainda bem…

texto Irmãs de Palavra

harukiharumaki 3

Leia Mais

Near Space photography - 20km above ground / real photo

DÊ UMA PAUSA – precisamos de esperança

de uma pausaprecisamos de esperança

Suicídio é dor. Dor por todos os lados. Dor antes e  dor depois. A dor de não ter mais pelo que esperar.

O sucesso da série “Thirteen reasons why” abriu um espaço no cotidiano calado para temas muito difíceis de serem enfrentados. Baseado e inspirando em um livro de título homônimo (lançado em 2007, de autoria de Jay Esher), a série que recebe opiniões e críticas diversas, tocou em um assunto que precisa de diálogo. O suicídio adolescente.  A literatura, o cinema e outras artes podem chamar olhares do mundo a sua volta sobre as questões mais difíceis que  nos adoecem. Mesmo se você tiver opiniões contrárias do autor, ou do desfecho da série/filme, você vai parar um momento para repensar suas crenças e atitudes sobre o assunto. E isso, de cara, já é um bom propósito.

Quando o escritor Seicho Matsumoto, em 1960, lançou o livro Kuroi Jukai, no qual narra um suicídio na floresta de Aokigahara, certamente não imaginava que muitas pessoas iriam até essa floresta para cometer na realidade o que havia acontecido na ficção escrita por ele. Aokigahara é conhecida atualmente no Japão como a “Floresta do Suicídio”. Autoridades responsáveis colocaram placas pela área tentando desestimular o feito. Mesmo assim, mais de cem corpos são encontrados anualmente lá.

A tragédia shakeaspereana mais famosa – Romeu e Julieta – conta uma história de amor de fim trágico e infeliz. O suicídio duplo dos amantes, decorrente de uma confusão sombria e um falta de esperança em ficarem juntos. No fim, o desperdício de duas jovens vidas apaixonadas.

Virgínia Woolf, autora aclamada, em suas últimas palavras escritas em carta para seu marido, despede-se da vida sem nenhuma esperança. E depois, suicida-se.

 “Meu Muito Querido: 

Tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. (…) Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida.
Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.
Virgínia Woolf  (março, 1941).”

No clássico francês Madame Bovary (1856), Gustave Flaubert nos apresenta uma personagem iludida por um mundo imaginário que projetou sobre o amor, e que se vê cada vez mais emaranhada em confusões, até que o fim é seu derradeiro suicídio. “Lançou vigorosamente grande pá de terra; e a madeira do caixão, ferida pelos seixos, fez o formidável ruído que nos parece ser a ressonância da eternidade”

Nas histórias ficcionais em que o suicídio aparece, podemos sentir quase fisicamente a sensação de desamparo das personagens suicidas. E o pior de todos os desamparos, ficar desamparado de si próprio. A dor de viver sem esperança. Sem vontade. Sem desejo.

Um sombra pesada que ecoa no absoluto silêncio alheio. Pedras no bolso que derrubam qualquer riso. Uma rua sem saída pra quem não sabe que o próprio trajeto pode ser uma saída. A festa que acaba. O personagem que tenta acertar, mas no fim apaga os seus sonhos. Nas tramas ficcionais ou nas histórias reais, o buraco negro cavado pelo suicídio deixa marcas de dor pelo mundo.

A ficção, de tempos em tempos, aborda o tema. Não porque quer estimular que o suicídio se propague. Porque existe pessoas desesperadas na realidade. Pessoas que não vêem mais nenhuma alternativa. Estando atrelada ao mundo, a ficção vai sempre abordar temas da existência humana. Suicídio é um deles. Se as palavras de um livro fossem terminar com um final feliz, no meio do caminho, a personagem suicida, encontraria algum apoio (dentro e fora de si mesmo) e, momentos antes de cometer o ato, desistiria, ou seria impedida e, de alguma forma, teria novamente a esperança pela vida. E depois, muito tempo depois, conseguiria perceber que ainda há motivos para continuar.

Mas nem sempre o final é feliz. Nem na vida, nem nas obras ficcionais. O personagem suicida precisa da coragem para pedir apoio. O mundo a sua volta, precisa prestar atenção e estender a mão. Tomara que existam linhas mais felizes. Para todas as pessoas. Linhas de esperança.

texto Irmãs de Palavra

IMG-20170823-WA0036

 

 

Leia Mais

bienal 1

Dê uma pausa ao lobo mau

de uma pausa

ao lobo mau

Uma alcateia foge de caçadores (2017). Bebês salvos por loba fundam Roma (753 a.C.). Famintos pelas frutas, lobos-guará ficam embaixo de árvores e estão ameaçados de extinção no Brasil (2017). Lobos na pele de cordeiros, segundo dito popular. Lobos que não são lobos nem cordeiros ocupam a Assembleia Legislativa nacional (hoje). Em documentários, lendas, livros, notícias ou crônicas; vamos falar dos lobos.

Presentes no inconsciente popular como feras sanguinolentas e selvagens, os lobos podem ter muito a nos ensinar. Vamos “refletinar”. Lobos são selvagens, sim. E ainda bem! Não domesticados, mantêm os instintos à prova da deformação causada pelo excesso de domesticação (não abanam o rabo feito cachorrinhos adestrados, não abaixam a cabeça feito gente que aprende que a  subserviência é o caminho para existência). Lobos não se dobram às regras que pretendem torná-los aquilo que não são, distanciá-los de sua própria natureza selvagem. Mas sanguinolentos, não! Lobos atacam por dois motivos básicos à sobrevivência: segurança e alimentação. Não se agrupam em bandos saqueadores de patrimônio alheio, nem se ajuntam em facções de extermínio. Tampouco formam quadrilhas que matam à esmo ou se alinham à trupes cheias de preconceitos, que detonam em bullying todos que são diferentes. Lobos não são assim.

Ana Maria Machado, destaque em literatura infanto-juvenil, em “Procura-se Lobo” (2005) expandiu uma ideia que começou décadas atrás. Quando, certo dia flagrou seus filhos emocionados (e talvez um tanto assustados) assistindo um documentário em que caçadores corriam atrás de lobos, nunca mais abandonou a imagem dos lobos. Essa história ficou perambulando por sua cuca e muito tempo depois, inspirou uma ficção que emocionou filhos das Irmãs de Palavra. Crianças que chamam a atenção dos pais sobre a necessidade que alguns bichos têm de proteção. Contra outros ‘bichos’. Mas não se engane. A principal inversão aqui, não é de idade. Trata-se de quem tem medo de quem.

Clarissa Pinkola Estés, no aclamado “Mulheres que correm com os lobos” (1992), compara a mulher restituída de toda sua psiquê selvagem aos lobos. Pois ambos têm em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão, devoção; são gregários, curiosos, resistentes, fortes, intuitivos, adaptáveis ao novo; providos de determinação feroz, extrema coragem, comprometimento com os filhotes; são parceiros e agrupadores. Não parece o melhor tipo de gente?

Os três porquinhos que nos perdoem, além de trabalhar ‘duro’, é preciso, sim, explorar a própria intuição. Dançar com o batuque do seu coração. Estar próximo de sua própria natureza. Que o homem tem se afastado de si mesmo e se tornado cada vez mais um espectro robotizado da figura humana, não é novidade. Que ele cindiu natureza e humanos, é fato sabido pelo mundo. Quando a literatura, séries e afins ressaltam características lupinas, talvez estejam chamando nossa atenção para um caminho: o resgate da nossa própria ‘natureza’, nossa humanidade. E quando homens e mulheres ficam distantes de quem naturalmente são, o consumismo impera, a distância nas relações se torna um tabu intransponível, doenças e males da “alma”(como depressão, pânico, apatia) são cada vez mais frequentes, a imaginação e criatividade ficam restritas e entediadas, o progresso do mundo estagna. Não somos virtuais. Não somos seres embotados e pragmáticos. Somos feito lobos, exuberantes e selvagens.

Ah, vamos falar dos ‘lobos’. Vamos, sim!

Texto Irmãs de Palavra

vavápelobo

Leia Mais

img-20161104-wa0004

DÊ UMA PAUSA, esqueça livros!

de uma pausa

E esqueça livros

Sabe aquele livro que salvou a sua vida em um dia nublado? Desapegue-se! Aquele outro que fez você se apaixonar e esquecer seus problemas por alguns minutos? Então, esqueça-o também! Ou o que fez você descobrir outros mundos? Dê essa chance para mais alguém!

Estamos ficando loucas? Loucas por esse engajamento!

Engajar é um verbo da língua portuguesa que se refere ao ato de participar de modo voluntário de uma atividade, trabalho, com intuito de apoiar. Etimologicamente engajar veio a partir do termo francês ‘engager’, que quer dizer ‘dar em garantia’, ‘empenhar’. Engajar-se não é adotar valores, objetivos e causas alheias. Engajar-se não é resultado de fórmulas, tampouco pode ser aprendido em tutoriais ou bancos universitários. Engajar-se depende menos de QI (Quociente de Inteligência) e mais de QE (Quociente de Esforço). Engajar-se é movimentar-se numa direção desbravada por você mesmo em comunhão com o mundo. É o santo graal de uma vida entusiasmada. E entusiasmada será intensa. E intensa será inspirada. E inspirada, uma vida reluz como se fosse milhares.

Logo, as Irmãs de Palavra emprestam esse termo para proclamar: engaje-se nessa ideia com vontade, ESQUEÇA LIVROS!!!

E abandone a solidão da sua história! Dia 25 de julho, terça-feira que vem deixe uma obra que adora, ou quantas quiser em algum lugar que possa ser encontrado por outra pessoa, com um bilhete, oferecendo essa história para  alguém. Isso não é fantástico?

A Campanha ESQUEÇA UM LIVRO foi criada pelo paulistano Felipe Brandão, que trabalha no mercado editorial e sempre ganhou muitos livros. Ele, que já conhecia o conceito criado nos EUA, resolveu abraçar a ideia por aqui. Criou uma página na internet e o projeto foi se multiplicando. 25 de julho de 2017 vai ser a segunda edição. E a primeira que as Irmãs de Palavra estarão engajadas. Então, não se assuste se encontrar pelas ruas de Maringá e Londrina livros esquecidos com um bilhetinho do tipo “Ei, você que achou este livro, agora ele é seu!”. Quem sabe algum deles não seja seu! Participe!

esqueça um livro

 

“Toda reação que você sonha ver no mundo espera sua ação”

Texto das Irmãs de Palavra.

Leia Mais

bienal 1

Dê uma pausa – não em sua EXPECTATIVA

de uma pausa

não em sua EXPECTATIVA

Dê uma pausa e abra um espaço. Não no seu dia. Na sua mente.

Vamos falar de expectativas. E nem venha com papo-furado, as Irmãs de Palavra querem uma coisa a mais. De você, e delas mesmas.

Expectativa frustra. Nem sempre. Às vezes só te enche de energia, de desejo, de vontade de viver.

Fuja de todas expectativas. Vai sair correndo do mundo? E vai pra onde?

Supere expectativas. De quem? Pra quê? O que você quer com isso?

 

“- Parabéns, você foi além das ‘nossas’ expectativas. 

Oi? Enquadre as de vocês e exibam em suas paredes, quero ultrapassar as minhas!”

 

Deixe todas as suas expectativas de lado. E viva no mar cinza dos desanimados, dos sem-vontade, dos entendiados?

Expectativa só atrapalha. Mesmo? Expectativa do nascimento de um filho, atrapalha quem?

Esteja sempre à frente das expectativas se quiser conquistar algo. Isso é possível? Claro que não! Como você pode adivinhar todas as expectativas do mundo? E supri-las? Nem mesmo todos os deuses do Olympo!

Expectativa gera ansiedade. E ansiedade é ruim? “Estou tão ansiosa para o nosso encontro!”  Quer coisa melhor que isso?!

Expectativa é esperar e esperar nunca é bom. Que tolice sem tamanho! Esperar prepara cérebro, espírito e corpo para algum acontecimento. Não é só bom, é necessário para o seu desenvolvimento.

Expectativa faz você projetar algo tão perfeito, que nada poderá superá-lo. Só se você ficar brincando de manipulador onipotente do universo. Grude as solas dos seus pé no mundo e tenha expectativas elevadas e boas. Não fechadas, amarradas e cheias de ilusão. Mas abertas para o novo, para a surpresa, para o melhor do outro, para seu talento mais genuíno.

E convenhamos, vamos parar de repetir as bobagens que falamos uns para os outros. Expectativa é ruim. Você tem que superar todas as expectativas! Você não tem nada, a não ser que seja importante pra você! Então escolha, consciente, prazerosamente, as expectativas que quer suprir. E faça disso um trampolim. Não um buraco fundo. ‘Nunca’ um buraco fundo.

Para não cair em uma bobagem atrás da outra.
De que tudo vira cópia. 
Onde você olha e amarra sua expectativa. Porque, e se soltar?  
Já se esqueceu de como foi descoberta a penicilina? Erros podem dar certo!
Quando degustar uma deliciosa bolachinha do tipo madeleine, a memória afetiva é sua.  Que diabos há em alimentar suas expectativas?
“A verdadeira viagem da ‘descoberta’ consiste não em buscar novas paisagens, mas em ter olhos novos”
(Marcel Proust)  
Texto: Irmãs de Palavra
expectativaexpectativa 2

Leia Mais

brevidade

O ‘breve’ de toda história

de uma pausa

 ‘Brevidade’

Não se trata aqui daquele biscoitinho de polvilho, que lembra os deliciosos quitutes das vovós (hoje dos chefs). E que neste inverno pode ir tão bem com uma caneca fumegando com sua bebida quentinha predileta. Trata-se, sim, do que provavelmente você está imaginando: o tempo. E toda sua velocidade, sua relatividade. Ok. Já sabemos de como os fatos podem mudar de uma hora pra outra, com uma rapidez assombrosa. E de como é vigoroso valorizar a própria história, agora. Mas, nunca (nunca mesmo) é demais relembrar. Porque, muitas vezes, relembrando é que aprendemos de verdade.
(*ah.. qualquer semelhança a fatos reais da ficção abaixo pode (ou não!) ser mera coincidência)

“- Já posso aumentar?
– Opa! Tá tranquilo – respondeu ao médico que subiu a velocidade da esteira e o fez se sentir o atleta que um dia já quis ser.

Dias. Voaram sem ele perceber.
– Cara, você tá com o coração de um garoto! Tá cuidando bem dele, hein? – garantiu brincando o cardiologista que, em seguida, franziu a testa. – Mas se eu fosse você procuraria um endocrinologia pra ver direito sua tireoide. – e fechando a cara, o que faz as marcas da sua testa ficarem ainda mais salientes, continua direto. – No ultrassom apareceram alguns nódulos. Melhor ver isso.

Semanas. Passaram mais lentas.
– Então, doutor, o cardiologista me mandou aqui …
BLÁBLÁBLÁ. Palavras nervosas. Frases confusas. Até o silêncio claustrofóbico.
Ele que não sentia nada. Saiu de um exame de rotina e foi parar na sala de ressonância pra fazer uma punção em nódulos maiores do que o padrão. Logo ‘ele’ que corria do trabalho pra escola das crianças. Da academia pra sacada com a mulher. Do futebol pra casa de amigos. De repente, estava em uma sala branca com agulhas enfiadas no seu pescoço. E elas poderiam furar tudo. Tudo mesmo! Inclusive sua rotina. Que, agora, lhe parecia um sonho.

1 Mês. Estranhamente arrastado.
O resultado. Laudo pronto. Mas ele não vai buscar. Sua mulher já está na porta do laboratório. Um instante e o barulho das crianças no carro, sem o menor contato com essa história, vai embora. Ela suspira. Olha pra cima e entre os galhos cortando o azul enxerga que poderia ficar escuro e mudo, pra sempre.
Não ficou. Essa história teve um final feliz. Por enquanto. No papel, a palavra benigno.”        

Em certas circunstâncias, a vida estende uma brevidade calorosa à você. Como uma oportunidade daquelas que ninguém pode deixar escapar! Um bilhete premiado. Dias e dias das melhores chances para usarmos nossa força na potência máxima. Porque podemos não ser os culpados pela nossa brevidade, mas somos responsáveis por tudo o que botamos dentro dela. Ah, isso somos!

Texto: Irmãs de Palavra

brevidade

Leia Mais