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Dê uma pausa – a história hoje não é uma história, é uma carta

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A história hoje não é uma história, é uma carta.

Londrina&Maringá, 05 de abril de 2018.

Vamos direto ao que interessa, precisamos conversar! Tanta coisa acontecendo e deixamos sempre pra depois, oras! Vamos acabar com isso de uma vez por todas! As pessoas não são pra depois. Não você. Nós queríamos fazer melhor, te convidar para uma taça de vinho, talvez. Poderíamos jogar conversa fora e falar sobre tudo que está engasgado entre nós. Você poderia me contar sobre o seu dia, o que vem dando errado, palpitar sobre a prisão do Lula, sobre a rejeição do habeas corpus do ex-presidente pelo Supremo Tribunal Federal, dizer porque está com tanto medo de mudar de emprego, tão inseguro quanto ao futuro. Poderíamos nos irritar juntos, talvez rir das bobeiras que nos fazem sofrer. Iríamos escutar com atenção todas as suas queixas: falta de tempo, falta de atenção, falta de tempo, falta de dinheiro, falta de tempo, falta de liberdade, falta de tempo. A gente podia xingar a internet que nunca funciona, o político que nunca funciona. Reclamar do valor da gasolina, do trânsito sem noção. Poderíamos falar mal da violência e dos preços abusivos. Poderíamos fofocar juntos, sobre sapatos, futebol, o tremor na Bolívia chacoalhando a gente aqui no Paraná, a celebridade que casou/separou/achou um novo grande amor da sua vida (até quando?). Se você quisesse, poderíamos andar pela cidade conversando. Assim prestaríamos um pouco de atenção nas ruas, nos prédios, nas esquinas enquanto discutiríamos sobre sexo, sobre a lua, por que não, sobre astrologia. Iríamos falar sobre as estrelas, sobre o fim do mundo. Pararíamos num bar desconhecido, tomaríamos um café, ou uma ‘champa’ juntos. Você ia gostar, e nós iríamos adorar. Poderíamos te contar nossos planos, as coisas boas que veem acontecendo. Talvez deixássemos o filho esperando além da hora ou o cachorro desesperado arranhando a porta do apartamento. Mas nós não nos importaríamos, estaríamos juntos e alegres. Rindo às gargalhadas. Nesse momento, não iríamos querer saber mais de nada! Seria uma boa conversa essa nossa.

Por isso quisemos escrever para você. Porque precisamos conversar. Não só nos informar. Nós precisamos conversar. Não só trabalhar. Nós precisamos conversar. Não só acumular. Nós precisamos conversar. Não só julgar. Nós precisamos conversar. Não só correr. Nós precisamos conversar. Não só se isolar. Nós precisamos conversar. Não só vencer. Nós precisamos conversar. Não só esperar. Nós precisamos conversar. Não só fazer-de-conta-que-temos-um-milhão-de-seguidores. Nós precisamos conversar.

E sabe, a carta pode ser um bom ‘lugar’ para isso. Não se recorda? Não tem problema. Lembra de jeitos diferentes de escrever cartas? Não tem problema. Porque cartas são palavras com destinatário certo, e não modelos corretos. Vencem distâncias e compartilham laços de afetos. Clarice Lispector, no auge de sua produção literária, perambulando o mundo ao lado de seu marido diplomata, correspondeu centenas de vezes com suas duas irmãs, também escritoras, Elisa e Tãnia.  Cartas que aconchegaram terras estranhas e descreveram o amor de irmãs, viraram um livro. Mas ‘Minhas Queridas’ (Ed. Rocco, 2007) não apenas aproximou as três irmãs Lispector, mas também as Irmãs de Palavra. Quando uma ganhou sua primogênita, em 2008, ainda no hospital, a outra se aproximou com essas cartas. Foi amor selado. No endereço exato. Porque como diria Clarice “não existem lugares, existem pessoas”.

Por falar neles, a mensagem também pode ser um bom ‘lugar’. Tem o e-mail, o whatsApp. Podemos telefonar ou aparecer de repente e ter o melhor de todos encontros. Porque de tudo que existe no mundo, o que mais precisamos é conversar. O resto é história (e nós adoramos!).

Beijos,

Irmãs de Palavra

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Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".