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Dê uma pausa – a história ‘hoje’ não é de hoje

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A história hoje é antiga.

Era uma vez uma garota que morreu de frio. A família não fez o que devia, cuidar da sua cria. A cidade não ofereceu o que podia, assistência pra quem pouco tinha. O mundo não deu o que prometeu, uma vida de alegria. E no fim, a garota que morreu não viveu como merecia: acabou petrificada em sonhos que nunca dariam em nada. Essa história não é de hoje, a de se perder em sonhos que nunca dão em nada. Em amores que não dão em nada. Em empregos que não dão em nada.

A pequena vendedora de fósforos é um conto antigo, escrito por Hans Christian Andersen. As Irmãs de Palavra gostavam de ler quando pequenas. Era o livro predileto da coleção de capa preta com gravura em alto relevo, vendida por livreiro, de porta em porta. A garotinha loira com lenço na cabeça, com o tempo, não se apagou da memória das Irmãs de Palavra. Mesmo sendo tão triste, nós ficávamos encantadas com a saga da pobre menininha solitária,  que no final, encontrava alívio na morte, levada pelos braços da avó tão amada, que havia morrido muito tempo atrás. Estávamos enganadas, nós, as Irmãs de Palavra. Nenhuma garota precisa encontrar alívio na morte. É a vida que deve dar conta disso. É a própria garota que precisa juntar suas tralhas e lutar. Vender os fósforos, ao invés de queima-los. Explorar todos os seus recursos, criar novos! Dar tudo de si. Bater em milhões de portas, até uma abrir. Defender-se. Saber buscar ajuda nas fontes de vida, e não nas da morte.

Você não pode se penalizar com um prédio ocupado que desabou e apagou vidas, e simplesmente continuar desviando seu olhar das ruas cheias de gente, de famílias que não têm onde morar. Você não pode querer outra história se ainda continua escrevendo com as mesmas palavras. Você não pode procurar amor aonde há descaso. Não pode fazer seu talento florescer aonde há cobiça e inveja. Não pode esperar amizade aonde há egoísmo e maldade. Não pode apostar todas suas fichas em fantasias. Não pode encolher-se diante da grandeza do mundo. Você tem que insistir, tomar fôlego e prosseguir.

A pequena vendedora de fósforos era só uma criança. E crianças precisam ser protegidas. São almas desvairadas, não estão preparadas para enfrentar a dureza da vida. Mas nós não somos mais crianças. Se a casa do vizinho é tão grande e tão quentinha, não importa, beije o solo da sua. Se o trabalho do outro é brilhante, ótimo, mas faça o seu. Se alguém lhe ofende, não rumine, abra a boca depois de abrir a cuca. Se algum garoto idiota tirou sarro do seu sapato, mande-o caçar sapo! Se sua mãe e seu pai falharam, vá cuidar da sua própria vida. Se algum morto vier lhe oferecer ajuda, diga que não, agora não, ainda não.

A vida não é um mar de rosas. Porque mar é feito de água salgada, profunda, com poder de cura. Mas que também pode te levar para longe tão longe tão longe, e você pode se perder. A vida não é mesmo um mar de rosas, é um mar de água salgada. E tem coisa mais bonita que o mar? O resto é história (e nós adoramos!)

Texto Irmãs de Palavra

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Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".