devaneio

DÊ UMA PAUSA e bata suas asas!

de-uma-pausa-300x153

E bata suas asas!

Existe um mundo incrível à sua espera. Pode acreditar! Você pode alcançá-lo, com as suas próprias mãos! Não precisa esperar nada para isso. O tempo é esse.  É claro que, às  vezes, terá que ajustá-lo para seguir seu destino, siga em frente. E a melhor parte: a pessoa certa para essa viagem é você! Sim, todos nós podemos bater as asas.

É o que fizemos – as Irmãs de Palavra e a mãe. Não literalmente, óbvio! As asas foram do avião (e elas nem batem de verdade). Mas chegamos longe. Comune di Nervesa Della Battaglia. Uma cidadezinha “piccola” e adorável da Itália, província de Treviso, pertinho de Veneza, com cerca de 6.600 habitantes; que vivem naquelas ruas pacíficas, enfeitadas por oliveiras, pinheiros, flores e casas atemporais e majestosas. Tudo banhado por um lindo canal. Foi lá nosso destino, o encontro com  o passado – a origem dos Favoretos do Brasil – a família dos Favoritos. Na verdade, o nome era outro: Favaretto. A grafia mudou nos cartórios brasileiros, mas isso não importa tanto assim. Mexemos em nosso relógio e chegamos a um ponto de origem.

Três de setembro de 1896. Às oito e meia  da manhã, veio ao mundo o filho de Luigi Favaretto e Onesta Dinale. Poucos meses depois que seu bebê, Antônio Benjamin Favaretto (o “nono” das Irmãs de Palavra) nasceu, o jovem casal se aventurou para uma terra distante. As famílias Dinale e Favaretto não aprovavam a união dos dois, então Luigi e Onesta decidiram deixar tudo para trás e viver esse amor, mesmo que isso significasse romper com todo o resto para sempre. A avó materna sofreu muito quando Onesta resolveu levar junto o pequeno Antônio, a princípio o casal deixaria o bebê na Itália. Mas não foi assim que fizeram, partiram os três numa longa viagem de navio, rumo às terras desconhecidas. A Itália ficou no passado. Os parentes nunca mais voltaram a se encontrar. No Brasil, o bebê cresceu pelo interior de São Paulo, vendo os pais trabalharem nas lavouras de café. Nasceram outros filhos de Luigi e Onesta:  Maria, Adolfo, mais um Antônio (o tio Nico), Ângelo, Bepe, Cipriano e João.  Todos aprenderam a cultivar a terra brasileira. E amá-la. Antônio, o filho mais velho, amou também Rita Lopes, com quem se casou. Foram 16 gestações, oito filhos sobreviveram: Aurélio, José, Maria, Estina, Irene, Mário, Irineu e Lúcia. A nona Rita guardou até morrer, com quase cem anos de idade, a foto do “Dorfinho”, o filho que faleceu aos quatro anos. Ela dizia que de todos, ele era o mais bonzinho. Quando os primeiros filhos de Antônio e Rita começaram a nascer, uma nova promessa de dias melhores. A família se mudou para o interior do Paraná, fincando raízes na cidade de Sertanópolis, na área rural, o sítio chamado Sete Ilhas. A caçula, Lúcia Lopes Favoreto (mãe das Irmãs de Palavra), nasceu nesta propriedade, no meio do cafezal. Cresceu ganhando doce do pai, Antônio (que todos chamavam de Toni), ganhando colo do pai, ganhando serenos sorrisos do pai, que falava em italiano e em português (também lia neste idioma, mesmo nunca tendo frequentado a escola). Um dia, quando a caçula já era professora e escrevia um trabalho, ele se aproximou e, preocupado, disse à filha que não conseguia mais ler. Lúcia riu e tranquilizou Toni, porque ela escrevia em gótico. Uma noite, o pai chamou Lúcia para que ela aprendesse a ajustar as horas no relógio da casa – o velho relógio de corda, pendurado na parede da sala. Nesta época já haviam se mudado das Sete Ilhas para a Vila Favoreto, em Sertanópolis. Era só o pai que mexia nesse ‘tempo’, então Lúcia respondeu aflita: “– Não, pai, pra quê? O senhor tá aqui!”  “– Porque você precisa aprender.”, foi sua resposta e também a última vez que Antônio mexeu naquele relógio. Na manhã seguinte, Toni foi trabalhar. Voltou porque tinha esquecido a enxada. E do outro lado da rua, gritou para a filha: “- Lúcia, traz a enxada pro pai não ter que atravessar”. Ele não atravessou mais. Neste dia, aos 68 anos, Antônio infartou e morreu no Brasil, sem nunca mais voltar para Nervesa Della Battaglia.

Mas a sua caçula, Lúcia, voltou com as filhas. Nós acabamos de conhecer, andar e tocar – com nossas próprias mãos – o mundo onde a história de nosso nono surgiu. Hoje, os descentes de Luigi e Onesta são muitos e estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo, tornaram-se tantos. O ponto onde tudo começa não determina aonde vamos chegar. Temos asas e podemos voar alto, voar longe. Mas o ponto onde tudo começa, nos liga para sempre à origem de quem, verdadeiramente, somos. E, na verdade, somos todos favoritos. Capite?!” O resto é história (e nós adoramos!).

Texto: Irmãs de Palavra

Obs.: O livro da foto – SeTenta – levamos junto nesta viagem, porque foi escrito em comemoração aos setenta anos da mãe das Irmãs de Palavra (o que já aconteceu há alguns anos), e o que está escrito nele, os pedaços da vida de nossa mãe, foram todos transformados quando Lúcia chegou lá, na origem de si mesma.

 cittá

SeTenta

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".