DÊ UMA PAUSA – tempos sombrios estão chegando…

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Tempos sombrios estão chegando…

E estão vindo rápido. Cada vez mais rápido.

Pode ser através de uma manchete de jornal, uma mensagem de WhatsApp ou um sinal dos céus; um grito no escuro, ou mesmo um sonho devastador. Não importa, o lado sombrio dos contos de fadas nos persegue há milhares e milhares de anos. E em algum momento, eles, finalmente, irão nos alcançar. E então, você terá que enfrentar o mundo, o seu mundo. Você terá que tomar suas próprias decisões. Sem fantasiar ou se enganar.

É assim desde os tempos mais remotos. Os homens contam (e vivem) histórias assustadoras.

Humanos ou feras? Crianças perdidas ou abandonadas à própria sorte na ‘selva’? Garotinhas que não obedecem os pais ou criaturas canibais? Amantes irresistíveis que te salvam do ‘sono’ profundo ou príncipes encantados que estupram a bela enquanto ela dorme? Reis benevolentes ou tiranos insanos?

‘ERA UMA VEZ’… Karin Hueck tinha razão em ‘O lado sombrio dos contos de fadas’ – As origens sangrentas das histórias infantis (Super Interessante, 2016), basta estalar essa frase nos seus ouvidos para que o leitor passe a habitar um mundo fantástico. E a acreditar nele e a defendê-lo com unhas e garras. É assim que acontece. O ser humano tem uma propensa queda pela imaginação criativa desde o começo do mundo. O que é maravilhoso, histórias inacreditáveis nos enche de potência, de coragem, de força e de vontade. De fé. Seremos os mais bravos guerreiros! Mas como dizem por aí – e talvez seja até verdade – tudo tem o tal lado “B”. Nos contos de fadas, são os monstros de duas cabeças, feras sanguinolentas, o lobo mau, buracos que não têm fim, bruxas que comem criancinhas. Na vida real, temos as contas que não têm fim, fake news, ditadores, assassinos, gente sem escrúpulo espalhando o medo, o preconceito e o terror pelo mundo. Karin Hueck defende a utilidade disso nos contos de fadas: “Quando uma criança ouve ou conta uma história sombria, ela mergulha no mundo da fantasia. Os enredos violentos seriam, então, um treino para a vida futura. Em vez de ir para a floresta enfrentar lobos e bruxas, a criança simula o perigo dentro da sua cabeça, mas ainda em segurança. Segundo essas teorias, seria algo parecido com o simulador de voo usado pelos pilotos: em vez de correr o risco de se espatifar no chão, a aula é feita em um ambiente seguro”.  O problema é quando o perigo foge das páginas e assume o mundo real.

Ainda que o faz de conta seja mais sombrio que sua realidade; você é tentado e até gosta de imaginá-lo e, às vezes, de habitá-lo. Porque as versões mais obscuras das histórias nos colocam mais próximos de nossa própria humanidade, que sempre foi e sempre será, cercada de perigos por todos os lados.

E foram felizes para sempre”, como as histórias podem insistir nessa bobagem? Talvez seja só uma brincadeirinha, um jogo de palavras. Eles não foram felizes para sempre, foram fortes para sempre. Eles lutaram. Para sempre. Sem fraquejar. Para sempre. Resistiram. Para sempre. Não há brincadeirinha alguma nisso, nem jogo de palavras. O resto é história (e nós adoramos!)

Texto das Irmãs de Palavra

Nos despedimos com um “continho” inocente dos lendários  Irmãos Grimm, em ‘O pé de zimbro’.  Coisa de criança: “ERA UMA VEZ… um casal que queria muito ter filhos. Quando eles finalmente conseguiram gerar um menino, a mãe morreu. Logo o pai se casou novamente e teve uma filha com a nova mulher, que odiava o enteado. Um belo dia, quando o menininho voltou da escola, a madrasta perguntou se ele não queria uma maçã, e o mandou buscar a fruta de dentro de um pesado baú. O menino se ajoelhou, abriu o baú e – pimba! a madrasta fechou a tampa sobre sua cabeça, que saiu rolando pela casa. Desesperada, a mulher botou o corpinho do menino sobre uma cadeira, equilibrou a cabeça por cima e enrolou um cachecol ao redor do pescoço para disfarçar. Então ela chamou a filha. ‘Marlene, seu irmão não quer dividir a maçã com você. Dê-lhe um tapa na orelha’, disse. A menina obedeceu, e a cabecinha do irmão rolou pelo chão. ‘Marlene, o que foi que você fez?’, gritou a mulher. Então, a madrasta picou o corpo do filho e fez um cozido com ele. Quando o pai chegou, ela serviu o ensopado. ‘Mulher a comida está deliciosa’. “

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Dany Fran

Dany Fran

Autora de "Dias Nublados", jornalista.