neil gaiman

AS DUAS GAROTAS

Era uma vez uma garota presa dentro da outra. Ninguém via a de dentro. Só a outra aparecia.

A de fora era bonita, alegre, vivia escrevendo bilhetinhos, que deixava por aí, com frases fofas e grudentas.

A de dentro não gostava. Não, ela odiava as frases melosas. Detestava dizer tudo aquilo. Sabia que era mentira.

A de fora viveu muito tempo ignorando a de dentro. No começo, nem sabia que ela existia. Depois, quando notou, fingia que não via. Escrevia mais bilhetinhos. Mais, muito mais. E passou a colá-los por todos os cantos: nas mochilas dos amigos, na geladeira, no rabo do gato, no espelho do banheiro, nos pratos postos em cima da mesa, na janela do ônibus. Todo mundo achava engraçadinho.

A de dentro passou a se zangar e, a cada dia, ficava mais brava. E descobriu como irritar a de fora. Foram longos anos de guerra. Uma contra a outra. A de fora, mais fofa e cor-de-rosa. A de dentro, mais rabugenta e furiosa.

Um dia, aconteceu o inesperado. Um garoto olhou pra garota de fora e viu a dentro.

Ele não disse nada, mas as duas perceberam. E ficaram ambas, cheias de pavor.

O garoto vinha, ficava perto, mudo, só esperando. As duas se escondiam. A de fora, tentando escapar, acabou lá dentro. E a dentro, como não tinha mais lugar, foi pro lado de fora. E viu tanta luz e se encheu de vida e gostou tanto das músicas que ouvia e das palavras que lia.

A garota de dentro, que antes era a de fora, foi ficando pequenininha, cada vez menor. Virou um grãozinho bem miudinho.

A garota de fora, que antes era a de dentro, beijou o garoto. E naquele instante ela entendeu. Nunca tinha existido uma garota de dentro e outra de fora.

 

As duas garotas

 

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".