neil gaiman

O abraço

Dizem por aí que o abraço saiu de moda. Um produto démodé. Caiu em desuso, devido ao uso exacerbado da Netflix.

Hum, a gente entendeu as razões. Afinal, quem precisa de um abraço se tem tantas séries pra assistir, tantos filmes pra gastar longas horas dos seus fins de semana, tantos documentários pra ficar antenado? Tantas entrevistas pra conhecer gente que importa de verdade?

Embarcamos nessa. Netflix do café da manhã ao fim do dia, quando a lua já estava alta lá no céu. Nós nos divertimos. É tanta coisa legal pra ver, tanta trilha sonora boaaaa. Homens lindos, histórias de amor verdadeiro, mulheres poderosas enchendo a vida de resistência e fôlego. Conhecemos partes insólitas do globo terrestre, choramos por dramas inventados. E os dias passavam, e a gente no sofá, no ônibus, escondidas no trabalho de fone de ouvido. NetflixNetflixNetflix.

Mas daí, uma de nós perdeu a pulseira da sorte. Sabe aquela que a gente ganha bem no comecinho da adolescência e depois não consegue tirar? Assistimos mais filmes, a pulseira ainda fazia falta. Atolamos em documentários, a pulseira ainda fazia falta. Vimos temporadas inteiras de séries de uma só vez, a pulseira ainda fazia falta. Reprisamos milhares de entrevistas, a pulseira ainda fazia falta.

A mãe das Irmãs de Palavra apareceu de repente, olhou pra filha que sofria falta, soube da razão que a entristecia e então, cometeu um sacrilégio. Abraçou a filha por um longo tempo, mexeu no seu cabelo, falou palavras bobas, brincou com a gola da blusa da filha e abraçou mais. A pulseira ainda fazia falta, mas um pouquinho menos. Um pouquinho menos, um pouquinho menos, um pouquinho menos… até que virou uma lembrança.

No último domingo (22/09), nós participamos do tradicional ABRAÇO NO LAGO, com os AMIGOS DE PALAVRA (do clube do livro AMIGOS DE PALAVRA, que acontece em Londrina e Maringá). Teve sol, café e espumante.Toalha xadrez, piquenique e doação de livros. Teve também tantos e tão diferentes risos! Mas o desejo foi especialmente um só: o abraço da paz. Mão na mão, conhecido com desconhecido e o lago Igapó foi enlaçado. Pela paz, por você, pela Ágatha Felix, pelo vizinho, pelo menino do outro lado do mundo. Pelo mar e pelo céu. Pela terra e por toda criatura viva. Mão na mão, conhecido com desconhecido. O abraço da paz.

 

(Beijo das Irmãs de Palavra, segue a gente lá no insta @irmasdepalavra)

 

O abraço

 

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".