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Os bailes de Nina Lopes

Os bailes da vida de Nina Lopes

A música já tocava alto quando Nina entrou no salão. Não era só dançar que a fazia ir para o baile. Eram dois pra cá, dois pra lá e ‘oi, tudo bem, nossa… você tem ritmo, hein’. Dois pra cá, dois pra lá e ‘você já foi ver a lista de Schindler’?Dois pra cá, dois pra lá e ‘conhece um bom médico de vista?’. Dois pra lá, dois pra cá e ‘que olhos bonitos você tem, parecem duas jabuticabas. Eu adoro jabuticaba’. Desde que separou do pai do filho que teve aos dezesseis anos, quando casou para sair de casa, dançar trazia mais vida pra vida de Nina.

Nesta noite, foi Ronaldo quem entrou na sua história. Quarentão, com tudo em cima. Pé de valsa, rodava o salão emendando uma música atrás da outra, cada uma com uma mulher diferente. Tanto vigor atraiu os olhares de jabuticaba. Não demorou para os olhos dos dois se cruzarem. E quando Ronaldo puxou Nina para o meio do salão, ficaram juntos até o fim do baile. O namoro engatou poucos dias depois. O casamento seis meses depois. Mas isto foi há muito tempo. Há 26 anos.

Neste domingo, Nina saiu de casa sozinha com a roupa do baile na bolsa pra vestir na casa da amiga. Ronaldo, pregado na poltrona da sala só reparou em Nina quando ela passou em frente à televisão e o atrapalhou justo na hora do gol. Há dois anos a única coisa que Ronaldo quer é ver futebol. Não quer trabalhar. Não quer fazer compras. Não quer ver os filhos. Não quer ir na praia. Não quer namorar.

Nina trabalha oito horas em uma empresa, limpando privadas e fazendo cafezinho com o sorriso mais bonito daquele lugar. Às sete horas da manhã bate o cartão com o delineador nos olhos de jabuticaba e a boca vermelha. À noite ganha uns trocados ajudando a fazer lanche no seu Manuel da esquina. Aos fins de semana, dá uma geral em casa, repõe a dispensa e ainda cuida da mãe doente. Ah… mas domingo é sagrado. É dia de baile. Há dois anos, Ronaldo não vai mais ao baile com Nina. Há dois anos ele a vê chegar em casa cansada, com as sacolas do supermercado e não levanta para ajudar. Há dois anos ele vê Nina cozinhar, passar sua roupa e reclama que o arroz tá com muito sal e a calça tá sem viga. Há dois anos Nina chora, tenta levar Ronaldo a um médico, um terapeuta. Há dois anos Nina insiste em tirar Ronaldo da poltrona, vendo tristeza em seus olhos. Há dois anos Ronaldo não enxerga uma palavra que sai da boca de Nina. Às vezes Nina chega em casa e também se joga na poltrona, e também não tem vontade de sair dali nunca mais. Ronaldo ainda a chama de amor. Nina ainda responde.

Mas neste domingo Nina saiu de casa. ‘Amor é uma planta que precisa regar um pouquinho a cada dia. Se deixar secar, vai que não floresce mais. É duro não ser notada. Não ser mais enxergada. Eu devia larga-lo, mas não consigo deixa-lo às traças. Só que cansei. Tenho 61 anos e ainda quero viver muito, beijar muito, ser desejada, amada, sabe como?’. Nina confessou para amiga com os olhos de jabuticaba molhados de raiva, enquanto as duas se arrumavam para o baile.

Chegando lá, adivinha só quem foi encontrar Nina?

Da série mulheres (in)visíveis – Os bailes da vida de Nina Lopes

 

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".