devaneio

Você tem fome de quê?

Você tem fome de quê?

Em um país onde pelo menos 5 milhões de pessoas estão desnutridas, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), essa pergunta pode até parecer idiota. Mas não é! Saciar a fome é uma necessidade básica. Nutrir a alma também.

Às vezes, em um momento insuportavelmente difícil, um toque alivia. Quando a dúvida corrói, palavras amigas abrem portas. Entre dias ocupados com tanto trabalho e contas pra pagar; uma música, o cinema, um bate-papo com amigo, uma série, um livro alimentam a vontade de continuar suas buscas, procurar novos objetivos e desenhar um belo destino para si mesmo.

A terceira temporada da série canadense ‘Annewithan E’, que é baseada em um livro – Anne de Green Gabies (1908, de Lucy Maud Montgomery) e adaptada pela escritora e produtora Moira Walley – extrapola sensibilidade na tela e impregna a sua mente com ousadia e muito, muito afeto. A protagonista – Anne -uma órfã que devora e ama livros (o que as Irmãs de Palavra também fazem!), é uma garota de 16 anos cheia de ímpeto para desbravar o mundo, ainda que desconhecido e muitas vezes solitário. Temas como consentimento sexual, liberdade de expressão, busca da sua origem, diferenças socioculturais e feminismo são tratados nesta temporada com uma delicadeza assombrosa, sem jamais perder a força. Sutilmente, entre seus dez episódios, as falas dos personagens nos provocam a também caminhar um pouco menos destemidos, ainda que por terras incertas. Quer ver só? Espia aí: ‘Às vezes a vida esconde presentes nos lugares mais sombrios’. ´É engraçado como as pessoas são tão rápidas para apontar as diferenças quando há tantas maneiras em que somos semelhantes’. ‘Não importa o que você descubra do seu passado, bom, ruim ou indiferente, saiba que você já é o bastante, tal como é agora’. ‘A melhor parte de saber as regras é encontrar a maneira de quebra-las’.

Para lidar com a realidade implacável, com suas rejeições, faltas e tantas ‘fomes’; Anne quebra várias normas e segue, luta –  mesmo quando está tudo escuro, quando não tem garantias de nada – pelo que sente e acredita. Ela queria saber de onde tinha vindo. Quem eram seus pais. Viver uma paixão. Atravessar pensamentos conservadores. Se colocar no mundo real, e ser aceita com todas suas fantasias e ‘esquisitices’. E você, o que quer?

Bem, Anne diz que quando os olhos estão à procura, o coração está aberto. E isso é pura coragem. Bravura de titãs para viver cada dia da vida, é o que precisamos. Afinal, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só comer. A gente quer prazer pra aliviar a dor!”.

Precisamos de ciência, do político, do agricultor e das mãos de muitos trabalhadores para matar a fome do Brasil.

Precisamos dos artistas (escritores, roteiristas, atores, cantores, pintores, poetas, dançarinos, artistas plásticos, fotógrafos e tantos outros) para matar a fome da alma (que também mata). Salvem os artistas do Brasil!

 

Beijos das Irmãs de Palavra

 

Kelly Shimohiro

Kelly Shimohiro

"Tudo é um ponto. E o ponto é você!" Autora de "O Estranho Contato".