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CaféComElas

A nona sempre nos contava a mesma história. E no momento mais importante,  ela imitava a própria voz:

Fecha a porta que ela tá chegando! – a nona dizia que todos da casa viram uma luz vinda do céu direto pra cima deles.

Era uma história de assombração. Foi ela quem correu e bateu a porta. Na manhã seguinte, encontraram a marca de uma mão espalmada, que nunca mais saiu da peroba da porta da frente da casa. Nós acreditávamos quando éramos crianças. (e hoje a gente sabe que, bem, a nona nunca mentiu)

Ouvimos essa história milhares de vezes. E toda vez a chaleira apitava quase na mesma hora. Justo quando ela batia a porta na cara da assombração. E a gente tinha que esperar o cafezinho ser coado. O cheiro ocupar a casa inteira. Pra só aí, enquanto ela engolia aquela bebida preta fumegando, terminar a bendita da história. Nas últimas vezes, também tínhamos canecas nas mãos (nesta altura, já podíamos beber café).

A chaleira vermelha parou de apitar. Mas as canecas continuam em uso. Acompanhadas, quase sempre, de uma boa prosa. Na época da Nona Rita, as Irmãs de Palavra ainda não sabiam, mas o café e as histórias se tornariam companheiros inseparáveis. Para sempre.

Hoje, muitos anos depois, nós ainda nos sentamos com um café na mão pra ouvir e contar histórias. Nós amamos tanto isso que inventamos, com a booktuber Ju Oliveira, o CaféComElas. Ele tem tudo o que a gente gosta: café, livros, brindes, bate-papo em um lugar charmoso. Não é um clube do livro, no CaféComElas nós não discutimos uma obra nem um gênero literário. A gente usa um livro como inspiração-tema, reúne gente mais que especial e ‘experimenta’ a história. A cereja do nosso bolo é que, a cada café, você se lance mais na vida. Na SUA vida.

Nona, a senhora iria adorar!

E você aí? Tá convidado. A porta tá aberta. É só chegar.

Beijos das Irmãs de Palavra

(segue a gente lá no insta @irmasdepalavra)

Café com elas

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neil gaiman

A MULHER MAIS VELHA DO MUNDO

Ninguém vai acreditar nessa história, mas ela aconteceu de verdade. A gente jura! Já faz muito tempo, então, nos desculpe se alguma coisa estiver fora do lugar. Acontece.

A gente tinha 13 e 10 anos. Não havia mais ninguém em casa. Era inverno, todas as janelas fechadas. Talvez fossem as férias de julho, era um dia preguiçoso sem escola. Lá pelas tantas, nós duas estávamos entediadas. A sessão da tarde tinha acabado. As bolachas recheadas e a lata de leite condensado também. Como não existia Netflix e nem instagram, fomos fuçar no porão.

No quarto de brinquedos havia uma porta de madeira pesada. Nós sabíamos onde a mãe escondia a chave. Descemos as escadas até o porão. Procuramos feito duas louquinhas o bendito interruptor.

Putaquipariu! Quem é você? – gritamos ao mesmo tempo.

– Eu sou a velha. Moro aqui há muito tempo.

– Como você entrou aqui?

– Eu também sei aonde eles escondem a chave.

– Quem traz comida pra você?

– Eu consigo o que quero sozinha.

– Você é um fantasma?

A velha riu tanto, que nós vimos que ela só tinha um único dente na boca. Demos um passo para trás. Nos encaramos. Dany Fran, a mais nova de nós duas, perguntou sem rodeios: – O que é que você faz no porão o dia inteiro?

– Eu espero.

– O que você tá esperando? – Dany não conseguia mais parar.

– Que venha uma menina, uma moça ou uma mulher procurar por mim.

– Pra quê?

Ela sorriu.

– Pra eu contar a história da ‘Mulher Mais Velha do Mundo’.

– Então conta pra gente! Conta! – batemos palmas.

E a velha do porão começou, “era uma vez”…

Depois desse dia, e por muito tempo ainda, as Irmãs de Palavra continuaram a descer escondidas no porão. Cada vez, a velha contava um pedacinho da história. E a gente voltava e a velha contava um pouquinho mais. Até que um dia, ela sumiu. Nós reviramos tudo, voltamos mil vezes ao porão. Nunca mais vimos a velha. Mas isso não tem importância. Ela já tinha chegado ao fim da história. Anotamos a última frase num diário antigo: “A mulher mais velha do mundo riu quando encarou a morte, sabia que era hora, tinha tido uma vida longa e boa. E, agora, todas as outras mulheres do mundo já sabiam o segredo para uma vida longa e boa: só tinham que ficar juntas!”

A mulher mais velha do mundo

 

 

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neil gaiman

O abraço

Dizem por aí que o abraço saiu de moda. Um produto démodé. Caiu em desuso, devido ao uso exacerbado da Netflix.

Hum, a gente entendeu as razões. Afinal, quem precisa de um abraço se tem tantas séries pra assistir, tantos filmes pra gastar longas horas dos seus fins de semana, tantos documentários pra ficar antenado? Tantas entrevistas pra conhecer gente que importa de verdade?

Embarcamos nessa. Netflix do café da manhã ao fim do dia, quando a lua já estava alta lá no céu. Nós nos divertimos. É tanta coisa legal pra ver, tanta trilha sonora boaaaa. Homens lindos, histórias de amor verdadeiro, mulheres poderosas enchendo a vida de resistência e fôlego. Conhecemos partes insólitas do globo terrestre, choramos por dramas inventados. E os dias passavam, e a gente no sofá, no ônibus, escondidas no trabalho de fone de ouvido. NetflixNetflixNetflix.

Mas daí, uma de nós perdeu a pulseira da sorte. Sabe aquela que a gente ganha bem no comecinho da adolescência e depois não consegue tirar? Assistimos mais filmes, a pulseira ainda fazia falta. Atolamos em documentários, a pulseira ainda fazia falta. Vimos temporadas inteiras de séries de uma só vez, a pulseira ainda fazia falta. Reprisamos milhares de entrevistas, a pulseira ainda fazia falta.

A mãe das Irmãs de Palavra apareceu de repente, olhou pra filha que sofria falta, soube da razão que a entristecia e então, cometeu um sacrilégio. Abraçou a filha por um longo tempo, mexeu no seu cabelo, falou palavras bobas, brincou com a gola da blusa da filha e abraçou mais. A pulseira ainda fazia falta, mas um pouquinho menos. Um pouquinho menos, um pouquinho menos, um pouquinho menos… até que virou uma lembrança.

No último domingo (22/09), nós participamos do tradicional ABRAÇO NO LAGO, com os AMIGOS DE PALAVRA (do clube do livro AMIGOS DE PALAVRA, que acontece em Londrina e Maringá). Teve sol, café e espumante.Toalha xadrez, piquenique e doação de livros. Teve também tantos e tão diferentes risos! Mas o desejo foi especialmente um só: o abraço da paz. Mão na mão, conhecido com desconhecido e o lago Igapó foi enlaçado. Pela paz, por você, pela Ágatha Felix, pelo vizinho, pelo menino do outro lado do mundo. Pelo mar e pelo céu. Pela terra e por toda criatura viva. Mão na mão, conhecido com desconhecido. O abraço da paz.

 

(Beijo das Irmãs de Palavra, segue a gente lá no insta @irmasdepalavra)

 

O abraço

 

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Bienal do Livro – Rio de Janeiro 2019

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça“. Se Vinicius de Moraes estivesse na Bienal do Rio deste ano, teria juntado João Gilberto e Tom Jobim para cantarem com gosto Garota de Ipanema. Vinícius teria se enchido de esperança ao ver zilhões de pessoas tão diferentes se esbarrando e rindo entre estandes lindos, lotados de histórias. Ele ficaria empolgado ao ouvir grandes talentos discutindo literatura.  Tanta gente lendo, escrevendo, criando mundos novos, seria – com certeza – fonte de inspiração para o aclamado poeta. Que teria aberto o coração ao ver a cidade maravilhosa recebendo escritores e leitores de todos os cantos de seu país. Vinicius acharia graça de tudo isso. E falaria do amor, seu grande tema. O amor pelas histórias.

Só que o cantor, sempre atento e preocupado com os problemas políticos e sociais, ficaria sério e convicto, pra compor o coro que inundou a Bienal no início da noite de sábado:

– Não vai ter censura! Não vai ter censura! Não vai ter censura!

Vinícius ficaria feliz com a vitória da democracia e da liberdade. Mas continuaria sério, pois ele saberia que viria mais luta pela frente.

E então, escreveria e cantaria versos para acordar toda essa gente brasileira de que a beleza que não é só nossa, morre nos dias tristes e frios da censura.

Ah, Vinícius, se a gente soubesse, que quando a gente passa unido e livre, o mundo inteirinho se enche de graça. Ah, se a gente soubesse…

Moraes encerraria a Bienal, declamando ao mundo inteiro:

“Brasil

Eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida eu vou te amar

Por isso te quero livre, forte e destemido”

 

Bienal do Livro – Rio de Janeiro 2019

 

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aaa vale

A revolução das palavras

A palavra sempre saiu por aí, rodando o mundo inteiro. A diferença agora é que ela percorre milhões de quilômetros num segundinho qualquer. É só clicar. Dissimulada, desinibida, escandalosa, chocante, traiçoeira ou descontraída, simples, verdadeira e bem colocada. Acostumada a tantas bocas, a danada é boa de conversa. Culta ou popular. Nos ‘zilhões’ de diferentes idiomas.

Mas um dia, aconteceu uma coisa engraçada. A palavra cansou. Fez greve, piquete, passeata, arrancou todos os penduricalhos que botavam nela, e disse que não ia mais a lugar algum. O mundo todo caiu de joelhos, gente de todo tipo implorou, negociadores de elite foram mandados até a praça principal de um paisinho miserável. Era lá que estavam as ‘revoltosas’. Unidas, haviam encontrado as amigas e, num mutirão, concordaram: foram usadas e abusadas, escorraçadas e mal tratadas. Em uníssono: NÃO MAIS! A Terra em silêncio, sedenta.

Não demorou muito para acontecer uma reunião democrática. As palavras disseram sim, voltariam ao mundo, à velha engrenagem da qual faziam parte. Só que tinham uma exigência. Que tudo que se dissesse a partir de agora obedecesse três princípios: fosse verdade, fosse gentil e nunca violento. Os negociadores caíram ali mesmo, estupefatos. Não tinham argumentos.

Não se sabe como a notícia se espalhou. Pessoas de todos os continentes sorriram. Para elas seria fácil, começaram a falar imediatamente. Mas o mais engraçado se deu em um sujeitinho tagarela. Esse aí nunca mais pode falar palavra nenhuma. Nunquinha. Imagina só!

Mudo, com o tempo, esqueceram dele. Aquelas palavras cabeludas, feias que dói, cheias de grosserias, intolerância, agressividade, mentiras deslavadas e preconceito; nunca mais foram ouvidas. Dizem até que o sujeito enlouqueceu. Não importa. A revolução estava feita. E as palavras voltaram ao mundo. Livres, leves, soltas, doidas pra escaparem da boca.

A revolução das palavras

 

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Histórias Cruzadas

Marlene internava a mãe, que não conseguia respirar. Oswaldo estava louco pra sair do plantão médico, que já durava quase doze horas. Pedro entrava para o time de base do Corinthians, que era o sonho do pai. Ronaldo não tirava o olho do iphone, sem saber se chamava Marlene ou não para sair um dia desses.  Bazílio visitava um parente no quarto ao lado da mãe de Marlene.

Era inverno e não chovia há dias. Tudo era seco.

Ronaldo gostava da Marlene,  que também gostava do Ronaldo. Pedro esperava ver logo Oswaldo, que também esperava ver Pedro. Num piscar de olhos, Maria morreu. Bazílio casou com Marlene. Oswaldo reduziu os plantões. Pedro comemorou o título de campeão do brasileirão com o pai, assistindo TV. E Ronaldo… bem, Ronaldo ainda está grudando no iphone. Chovendo ou não.

 

Histórias cruzadas

 

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