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Neste Natal

Neste Natal

 

Papai Noel acordou, de propósito, na hora errada.

Vestiu uma roupinha qualquer (ele só tinha calças e casacos vermelhos) e decidiu: “Desta vez não carrego nada!”. Passou pelas renas, brincou um pouco com elas, que ficaram todas alvoroçadas. Esse era o grande dia, hoje elas iam passear pelo mundo inteiro!

– Não, queridas. Desta vez, não. Eu vou sozinho, não vou levar nenhum presentinho. Só vou mesmo levar esses docinhos, – e mostrou para elas um saco cheio de balinhas.

Elas não sabiam o que dizer. Quando o Papai Noel passou pelos portões, cochicharam:

– O Papai Noel tá pirado! O Papai Noel tá pirado!

Logo se esqueceram, começaram a abrir os panetones. É a comida predileta das renas.

Lá pelas tantas, o Papai Noel já tava cansado. A viagem a pé exigia mesmo do bom velhinho.

Então ele resolveu parar pra descansar. Só um pouquinho.

Acontece que ele pegou no sono. Dormiu o dia inteirinho.

E quando acordou, viu que não ia mais dar tempo. Este ano, o Natal estava perdido.

Coitado, ficou todo descorçoado. O que vai ser da criançada?,lamentou o velhinho.

Mas o que o Papai Noel não sabia, é que pelo mundo todo, a notícia se espalhou. Até hoje não se sabe quem contou. Se foi um duende que passava por ali e viu o Papai Noel dormindo no Natal, ou a Mamãe Noel que andava desconfiada do cansaço do marido. Afinal, ele tinha mais de mil anos, merecia um descontinho.

De um jeito ou de outro, a criançada já tinha um plano. E quando o Papai Noel, todo triste e choramingando, estava pegando o caminho de volta para casa, escutou uma música baixinha, que vinha de todos os cantos do planeta.

Em cada casa onde existia uma menina ou um menino, a cantoria corria solta.

Papai Noel sentou numa pedra grande, só pra ouvir melhor. Então, ele cantou também:“Neste Natal não tem presente nem balinha. Neste Natal estamos todos tão contentes. Neste Natal nós só queremos amor e alegria”.

Devagar, os adultos começaram a acompanhar. Na rua, dentro dos restaurantes, nos campos, nas praias e pradarias.

Dizem que aquele foi o melhor Natal que a Terra já viu.

Neste Natal

 

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Os bailes de Nina Lopes

Os bailes da vida de Nina Lopes

A música já tocava alto quando Nina entrou no salão. Não era só dançar que a fazia ir para o baile. Eram dois pra cá, dois pra lá e ‘oi, tudo bem, nossa… você tem ritmo, hein’. Dois pra cá, dois pra lá e ‘você já foi ver a lista de Schindler’?Dois pra cá, dois pra lá e ‘conhece um bom médico de vista?’. Dois pra lá, dois pra cá e ‘que olhos bonitos você tem, parecem duas jabuticabas. Eu adoro jabuticaba’. Desde que separou do pai do filho que teve aos dezesseis anos, quando casou para sair de casa, dançar trazia mais vida pra vida de Nina.

Nesta noite, foi Ronaldo quem entrou na sua história. Quarentão, com tudo em cima. Pé de valsa, rodava o salão emendando uma música atrás da outra, cada uma com uma mulher diferente. Tanto vigor atraiu os olhares de jabuticaba. Não demorou para os olhos dos dois se cruzarem. E quando Ronaldo puxou Nina para o meio do salão, ficaram juntos até o fim do baile. O namoro engatou poucos dias depois. O casamento seis meses depois. Mas isto foi há muito tempo. Há 26 anos.

Neste domingo, Nina saiu de casa sozinha com a roupa do baile na bolsa pra vestir na casa da amiga. Ronaldo, pregado na poltrona da sala só reparou em Nina quando ela passou em frente à televisão e o atrapalhou justo na hora do gol. Há dois anos a única coisa que Ronaldo quer é ver futebol. Não quer trabalhar. Não quer fazer compras. Não quer ver os filhos. Não quer ir na praia. Não quer namorar.

Nina trabalha oito horas em uma empresa, limpando privadas e fazendo cafezinho com o sorriso mais bonito daquele lugar. Às sete horas da manhã bate o cartão com o delineador nos olhos de jabuticaba e a boca vermelha. À noite ganha uns trocados ajudando a fazer lanche no seu Manuel da esquina. Aos fins de semana, dá uma geral em casa, repõe a dispensa e ainda cuida da mãe doente. Ah… mas domingo é sagrado. É dia de baile. Há dois anos, Ronaldo não vai mais ao baile com Nina. Há dois anos ele a vê chegar em casa cansada, com as sacolas do supermercado e não levanta para ajudar. Há dois anos ele vê Nina cozinhar, passar sua roupa e reclama que o arroz tá com muito sal e a calça tá sem viga. Há dois anos Nina chora, tenta levar Ronaldo a um médico, um terapeuta. Há dois anos Nina insiste em tirar Ronaldo da poltrona, vendo tristeza em seus olhos. Há dois anos Ronaldo não enxerga uma palavra que sai da boca de Nina. Às vezes Nina chega em casa e também se joga na poltrona, e também não tem vontade de sair dali nunca mais. Ronaldo ainda a chama de amor. Nina ainda responde.

Mas neste domingo Nina saiu de casa. ‘Amor é uma planta que precisa regar um pouquinho a cada dia. Se deixar secar, vai que não floresce mais. É duro não ser notada. Não ser mais enxergada. Eu devia larga-lo, mas não consigo deixa-lo às traças. Só que cansei. Tenho 61 anos e ainda quero viver muito, beijar muito, ser desejada, amada, sabe como?’. Nina confessou para amiga com os olhos de jabuticaba molhados de raiva, enquanto as duas se arrumavam para o baile.

Chegando lá, adivinha só quem foi encontrar Nina?

Da série mulheres (in)visíveis – Os bailes da vida de Nina Lopes

 

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Desacelere

DESACELERE

Vá a pé. Desligue a TV. Tome um café a dois. Descanse na rede. Acorde devagar. Enxugue a agenda. Ofereça o ombro. Cante com os pássaros. Se divirta no caminho. Conte em uma das mãos os compromissos do dia. Transgrida.

Não troque o celular. Ouça uma play list inteira. Escolha suas próprias roupas. Visite o seu bairro. Arranque as mordaças. Descubra seus talentos. Invista naquele amigo. Beba um vinho. Espere um pouco. Não responda todas as perguntas. Desperte.

Conte até dez. Tome um banho de chuva. Quebre as regras. Aproveite a sua própria casa.  Abra as janelas. Dê as costas. Dê as mãos. Empreste livros. Tenha um encontro. Se demore. Acalme o cérebro. Passe um dia de roupão. Diga não. Surpreenda-se.

Limpe os próprios sapatos. Desconstrua. Se recolha. Mostre a língua. Estenda os lençóis. Não aceite. Seja rebelde. Faça com calma. Edite seus textos. Redecore o jardim. Plante sonhos. Não ouça discursos. Não valide opinião alheia. Se dê prazer. Reduza os lixos. Diga: Sim, amor. Viva aventuras. Descubra-se.

No fim, comece de novo. Não desista. Resista. Insista. Abra os olhos. Ligue sua tomada interna. Prossiga. Ouça a voz de dentro. Pinte as paredes. Aprecie o quadro, a rua, seu saldo. Não repita slogans. Você não é só um operário. Bata as asas e lute por todos. Confie nas estrelas. Faça sua trilha. Seja seu guia. Não pegue a fila. Desacelere. E invente um bom dia!

 

(beijos das Irmãs de Palavra, segue a gente lá no insta @irmasdepalavra)

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Bon appétit!

Bon apétit!

 

Foi só em Paris, que a mais velha de nós duas aprendeu a gostar de croassant. Foi ano passado, numa aventura que fizemos com a nossa mãe. Sentadas num café em frente a uma pracinha sem nome de um bairro desconhecido da cidade ‘luz’, a Irmã de Palavra mais velha descobriu o sabor da manteiga misturada à farinha, ovos, água, açúcar e mais (muito mais!) manteiga. Talvez tenha sido o cenário cheio de árvores altas e charmosas, ou as pessoas naquele francês rápido e tão sonoro. Ou a ideia das três estarem ali juntas, longe do resto da família, numa aliança só delas. Não importa, croassant agora é regra.

E como nada vem sozinho, fomos contagiadas por outras ‘coisinhas’ francesas. Eles realmente adoram a arte. Vão a museus, leem feito doidos em todo e qualquer lugar; cantam, bebem e dançam à margem do Sena. Eles também prestam atenção. Primeiro em si mesmo, no que querem e precisam. São bons em dizer não. As cadeiras dos cafés são voltadas para a rua, para que possam apreciar o que tem em volta. Se alguém fala, o outro olha nos olhos, e ouve. Eles saboreiam a refeição. Nada de comer atarefado com qualquer outra besteira, nada de uma colherada em cima da outra. A comida, como quase tudo por lá, precisa ser feita e degustada com prazer. A impressão é que eles estão sempre prontos para o melhor. Não querem desperdiçar a própria existência, estão sempre ao ponto de saboreá-la.

Ninguém precisa ir até Paris (se bem que, não perca a oportunidade!) para aprender uma boa lição: le plaisir de vivre.

E nós não estamos falando aqui de conquistar sonhos, de viajar pelo mundo, ser dono de uma rede de supermercados, publicar mais livros, ter milhões de seguidores, passar no vestibular, comprar um apê ou uma moto, ou para quem insiste, um louboutin. Não! Não é sobre conquistas. O le plaisir de vivre vem bem antes disso. E, pra falar a verdade, todas as suas conquistas não vão te levar até ele.

Voltando de Paris, nós duas aprendemos: Toujours bon apétit! Não importa, le plaisir de vivre agora é regra.

 

Beijos das Irmãs de Palavra

(segue a gente lá no insta @irmasdepalavra)

Bon apétit!

 

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As boas lembranças

Nem todas as lembranças que você carrega são boas. Talvez a maioria delas não seja, digamos, um “sucesso Hollywood”! Não importa, algumas valem a pena. Às vezes é uma música, que te faz viajar e suspirar com a paixonite do primeiro namoradinho da escola. Ou uma foto antiga de um Natal, com sabor de peru, alegria e esperança. Não curte peru…. tudo bem, vamos pra frente. Tem gente que quando sente um perfume, já volta lá atrás, para o melhor encontro que teve na vida. Uma comida preparada pela mãe que já morreu (ah que gostinho bom que tinha), o pedaço de uma fita do vestido mais lindo que você usou. Tem homem barbado que quando ouve as palavras “carrinho de rolemã”, abre um sorriso, que saudades das tardes de aventura. Até parece que, naquela época, podíamos tudo. Lembranças, as boas, têm um poder mágico em você. O riso espontâneo que elas provocam, renova a nossa fé no bem, nas coisas boas da vida.

E é sobre uma – em especial – que queremos falar com você. Uma lembrança cheia de amor que as Irmãs de Palavra guardam como um tesouro. Tem a ver com livros: “Um dia, muitos anos atrás, uma de nós duas chorou pela primeira em frente um livro (bem, pode não ter sido a primeira vez, mas é a primeira que ela se lembra!). O fato é que neste dia, não foram os estilingues dos garotos que mataram inhambus ou a surra de vara que o Zezinho da Porquinha Preta levou, que comoveu uma de nós. Foi a coragem do garotinho, capaz de fazer qualquer coisa – qualquer mesmo – pra não deixar que o pai vendesse a Maninha, a porquinha preta.” Toda essa aventura estava dentro do livro “Zezinho, o dono da porquinha preta”, de Jair Vitória. Só de lembrar nele, a gente sente a mesma emoção, a vontade de chorar e de sair por aí pelo mundo, defendendo com toda garra aquilo que se acredita. Zezinho, no livro, defendeu a porquinha. Hoje, queremos proteger nossos filhos, nossos livros, nossa democracia, nosso país.

Quem viveu a adolescência e pré-adolescência nos anos 70/80 e 90, deve se lembrar da coleção Vaga-lume. Era impossível um garoto ou uma garota daquele tempo, em algum momento na escola, não ter pegado um livro desses na mão. A coleção Vaga-Lume revolucionou uma geração de leitores infantojuvenis, encantou os leitores mirins com suas histórias simples, cheias de imaginação e aventuras. Se você é dessa época, deve estar se lembrando agora. E se você não é, pergunta pra alguém que é e ouve as lembranças que ele tem pra te contar. Não vai se arrepender! Em 2015, algumas obras da coleção Vaga-Lume foram relançadas, ganhando um visual mais moderno. Até o mascotinho da série, o Luminoso, ganhou uma roupagem nova. O que continua igual, é o barato de ler todos esses escritores nacionais publicados pela Vaga-Lume. Barato para as Irmãs de Palavra vai ser nesta quarta-feira, dia 06 de novembro, na Festa Literária de Maringá (FLIM), quando nós estaremos mediando a mesa –Série Vaga-Lume: literatura que ilumina, com o editor e poeta Fabio Weintraub e a escritora Jô Duarte. Vamos voltar na nossa infância e adolescência e de lá trazer lembranças cheias de alegria. Porque nós precisamos lembrar das coisas boas, elas estão dentro da gente, em algum lugar. E a gente não pode esquecer que uma lembrança boa tem mesmo um poder mágico: ela acorda você!

 

As boas lembranças

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neil gaiman

Salve, Jorge!

Há pouco tempo, pouquíssimo na verdade, as Irmãs de Palavra viram um fantasma. Aconteceu quase sem querer, nós duas íamos muito bem obrigada, passeando sem nenhuma pretensão pelas ruas da cidade. Quase chegando ao cruzamento entre a Rua da Paz e a Avenida dos 7 ventos, alguém bateu – bem de levinho – em nossas costas.

Viramos para trás ao mesmo tempo. De repente, sentimos um calafrio.

– Olá, – disse um homem estranho, de cartola na mão, cueca samba canção e sapatos brancos ilustradíssimos.

Demos uma risadinha, já tínhamos visto aquele sujeito em algum lugar.

– Oi. – respondeu uma de nós.

– Vocês são as Irmãs de Palavra, não é mesmo?

– Sim, – sorrimos de orelha a orelha. Já estão nos reconhecendo pelas ruas!

– Tem alguma coisa a ver com as palavras daquele livro bem grande, a bíblia? – ele coçou a cabeça.

– Não, claro que não. Nada disso! É que somos irmãs e escritoras. Irmãs de Palavra, entendeu?

– Ah, tá! – pareceu desconcertado – então, talvez eu devesse procurar outra pessoa – ele coçava a cabeça insistentemente.

Já íamos dar no pé, quando ele arregalou seus enormes olhos azuis e disse tudo de uma vez:

– É que eu morri agorinha pouco, tive uma daquelas paradas, que fazem o coração dormir para sempre, – ele riu – e eu tô procurando o caminho certo, achei que as Irmãs de Palavra poderiam saber qual é.

Demos uma gargalhada. É claro que se tratava de um lunático.

– Isso é fácil! O caminho certo é sempre à frente! – uma de nós brincou.

– Tá bom, então. Obrigado, senhoritas.

Ele deu um passo para frente e antes de abrirmos caminho, ele nos atravessou. Passou por nós assim, como os fantasmas de filme atravessam paredes.

Sem dizer uma só palavra, corremos para casa. Na varanda em frente, o velho vizinho lia um jornal. E na capa, tinha uma foto bem grande do homem da cartola, sorrindo, todo elegante. A manchete dizia: ‘Morre o ator e diretor JF, aos 64 anos’. A linha fina abaixo da foto, explicava a causa da morte: parada cardíaca.

Juramos nunca contar nada disso pra ninguém. Mas pintamos numa plaquinha, que pregamos na porta de casa: “O caminho certo é sempre à frente! Salve, Jorge!”

Beijos das Irmãs de Palavra

(segue a gente no insta @irmasdepalavra)

 

Salve, Jorge!

 

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