neil gaiman

AS DUAS GAROTAS

Era uma vez uma garota presa dentro da outra. Ninguém via a de dentro. Só a outra aparecia.

A de fora era bonita, alegre, vivia escrevendo bilhetinhos, que deixava por aí, com frases fofas e grudentas.

A de dentro não gostava. Não, ela odiava as frases melosas. Detestava dizer tudo aquilo. Sabia que era mentira.

A de fora viveu muito tempo ignorando a de dentro. No começo, nem sabia que ela existia. Depois, quando notou, fingia que não via. Escrevia mais bilhetinhos. Mais, muito mais. E passou a colá-los por todos os cantos: nas mochilas dos amigos, na geladeira, no rabo do gato, no espelho do banheiro, nos pratos postos em cima da mesa, na janela do ônibus. Todo mundo achava engraçadinho.

A de dentro passou a se zangar e, a cada dia, ficava mais brava. E descobriu como irritar a de fora. Foram longos anos de guerra. Uma contra a outra. A de fora, mais fofa e cor-de-rosa. A de dentro, mais rabugenta e furiosa.

Um dia, aconteceu o inesperado. Um garoto olhou pra garota de fora e viu a dentro.

Ele não disse nada, mas as duas perceberam. E ficaram ambas, cheias de pavor.

O garoto vinha, ficava perto, mudo, só esperando. As duas se escondiam. A de fora, tentando escapar, acabou lá dentro. E a dentro, como não tinha mais lugar, foi pro lado de fora. E viu tanta luz e se encheu de vida e gostou tanto das músicas que ouvia e das palavras que lia.

A garota de dentro, que antes era a de fora, foi ficando pequenininha, cada vez menor. Virou um grãozinho bem miudinho.

A garota de fora, que antes era a de dentro, beijou o garoto. E naquele instante ela entendeu. Nunca tinha existido uma garota de dentro e outra de fora.

 

As duas garotas

 

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neil gaiman

PAPO DE CORREDOR

– Eu não gosto de envelhecer!

Sem nenhum rodeio, Rebeca me disse enquanto tomávamos um cafezinho no corredor da empresa que trabalhamos. Uma mulher vigorosa, de sorriso fácil. Boca vermelha, delineador marcado às sete da manhã e uma disposição que me contagia todos os dias. Até naqueles em que trabalho, mesmo sem um pingo vontade. Eu fico matutando que ela também deve ter suas horas de desânimo, mesmo sempre com aquela gargalhada espontânea; porque, afinal, Rebeca não gosta da ideia do tempo passar. E mesmo sem relógio no pulso, ele passa.

Quando eu lhe pergunto o motivo dela não gostar de envelhecer, mais uma vez  é direta:

– Eu adoro a vida, não quero que ela acabe! Não quero deixar de dançar, de ser paquerada, de me sentir útil.

Por que é que a gente acha que ‘velho’ tem menos direito ao prazer, hein?!  Às vésperas de completar 60 anos, Rebeca é ágil na limpeza, cuida da mãe doente, paga as contas de casa, superou o término de um casamento mesmo ainda morando com o marido, que não é mais seu companheiro de cama. Rebeca não perde uma oportunidade para encontrar uma amiga. Para esticar as pernas e tomar sua cervejinha. Muito menos para arrancar os sapatos e dançar como uma louca até não aguentar mais.

– Rebeca, depois da velhice tem mais vida. Você é mais vida pra mim aqui neste escritório todo santo dia!

Depois de nosso breve minutinho de papo lhe ofereci um texto do livro da Andréa Pachá para ler. E voltei na loucura frenética das minhas planilhas.

Claro que esqueci do livro. Da Rebeca. Da velhice. Mas ela não. Antes de ir embora, Rebeca veio até minha mesa. Com a boca ainda mais vermelha que antes e os cabelos soltos, sentou. Esperou eu terminar uma ligação, esticou as mãos e devolveu meu livro com um riso estampado na cara:

– Não entendi muita coisa do que li, mas uma coisa é verdade. Não é só de memória que a gente vive, é de prazer. E isto não tem mesmo a ver com idade!

Papo de corredor

 

 

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love

UMA ÚNICA MULHER

UMA ÚNICA MULHER

Aquele foi um dia estranho. Nunca tinha acontecido nada igual. Ninguém sabia explicar. Mas não havia como negar. O mundo todo tinha enlouquecido.O primeiro sinal veio do sol. Nasceu em todos os hemisférios na mesma hora. Pessoas acordaram no meio da madrugada, apressadas, desesperadas, mal-humoradas. Vestiram-se e saíram à rua ao mesmo tempo. O dia precisava acontecer!

Depois foram as folhas. Como se tivessem ensaiado, caíram mortas no mesmo instante, pelo planeta inteiro. Nem nas terras mais longínquas, sobrou uma arvorezinha com uma folhinha sequer.

Então foram os carros, as motos, os aviões, os helicópteros; qualquer veículo que existia parou. Greve geral. Nem o melhor mecânico do mundo deu jeito!

Aconteceu também com a água (congelou nos rios e mares, dentro dos canos, nos copos, caindo das bicas e duchas, em todas as cidades, vilas, campos e casas) e com os animais (de uma hora pra outra, desapareceram, se escafederam!). Até a eletricidade apagou-se por completo. Mas quando celulares, computadores e tabletes desligaram-se sozinhos, o caos foi absoluto.

Então, soprou-se um vento gélido e como por encanto, todos caíram num sono profundo e mortal. Dizem que se passaram anos. Séculos, talvez milênios. Ninguém sabe precisar ao certo. O silêncio reinava pelos quatro cantos da Terra.

E antes do sol voltar a aparecer, das folhas brotarem, dos veículos ziguezaguearem, da água espirrar, dos animais ressurgirem soltos e selvagens, das luzes se acenderem e dos celulares apitarem, uma única mulher abriu os olhos. Tomou uma taça de vinho, sorriu e disse: “Agora, sim. Agora, sim.” E o mundo todo despertou.

Uma única mulher

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dream

A MÁGICA

A MÁGICA

 

Era uma vez um dia qualquer. Um grupo de amigos se meteu numa van e saiu por aí, numa estrada sem fim. Chegando lá, mas que surpresa! O mundo todo estava ali. Tinha o sol brilhando em cada canto, o mar fazia de conta que aquele era o paraíso. Pés de todo tipo zanzavam pra lá e pra cá, uma multidão desenfreada em busca de alguma coisa mágica. Os amigos sabiam, eles sabiam o que todos procuravam lá. E então decidiram:

– Vamos logo! Antes que a mágica acabe!

E foram. A mágica tava nas ruazinhas de paralelepípedo, embaixo da árvore gigante no meio da praça e em volta da igreja, feito uma oração poderosa. Também tava escondida numa casinha pequena por fora e fantástica por dentro. Havia muitas casinhas assim por lá. A mágica se espalhava por uma tenda grande, que ocupava o centro de tudo. E se você cruzasse a ponte, tinha mágica no quiosque, na banquinha, na Kombi, na barraquinha, no barco e até no sertanejo que subiu nas latas pra entoar sua cantiga.

Os amigos adoraram, queriam mais. Muito mais. Mas ouviram o sino. A hora final tinha chegado. Então, se meteram mais uma vez na van e zarparam de volta. Cada um pra um lugar diferente. Afinal, todo mundo tinha a sua vida pra viver.

Só que a mágica que eles buscaram naquela festa em Paraty (Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, 2019), nunca mais ia acabar. Os amigos descobriram o segredo dos livros: “Toda história tem poder (a sua tem mais)”.

A mágica

 

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LIVROS (DES)EDUCAM O SEU OLHAR

Livros (des)educam o seu olhar

            A educação é um direito do povo, é um dever do governo. Um povo educado é um povo com mais chances. Chances de se colocar na vida com mais dignidade, mais humanidade, mais consciência e mais cidadania. Um país educado é um país mais próspero, que se coloca no mundo (e perante o mundo) com mais soberania.

Livros (digitais ou físicos) fazem parte da educação. São neles que estão sistematizados muitos dos conhecimentos que desenvolvem o pensamento crítico e analítico do aluno. Mega importante, o mundo todo sabe. Mas os livros de literatura são um pouco diferentes. A literatura não tem obrigação didática. Não quer dar lição. Não se presta ao papel de educar para um fim. A literatura cria novos mundos, mexe com a sua emoção, com o seu poder de ser mais ousado e criativo na vida. De rebelar-se!

Rindo, o leitor passeia por adjetivos de Vinícius de Moraes e fica até apaixonado por momentos que nunca viveu. Estimulado, o leitor vai com o triller de Raphael Montes para um Rio de Janeiro ainda mais cruel que o das manchetes, sem sequer tirar os pés do chão. Emocionado, o leitor revê sua vida dos sete aos quarenta, com a sensibilidade profunda da ficção de João Carrascoza.

A literatura (des)educa o seu olhar, porque rompe a forma vigente, formatada, de pensar. Educar-se para a literatura é criar novas e próprias visões de mundo. Os livros literários estão à disposição de nossos toques não para explicar, defender paradigmas ou ditar normas; mas para expressar e ampliar. Sentimentos, tragédias, temas humanos que atravessam tempos e lugares. As Irmãs de Palavra desejam que concursos literários não sejam vetados, que livros de literatura cheguem às escolas públicas antes que o ano letivo acabe, que bibliotecas recebam novas e múltiplas obras. Porque nós sabemos que a educação vai muito além dos conteúdos formais. Também sabemos que precisamos fazer ciência, entender fórmulas, falar outras línguas. Mas nós precisamos, mais do que nunca, criar asas em nossa imaginação. Só assim, superamos o mundo que vivemos e inventamos um melhor. A literatura, a filosofia, a arte nos fazem voar. Educação também é invenção, não só repetição. Livros também precisam (des)educar! E não se esqueça: “Toda história tem poder (a sua tem mais)”.

Beijo das Irmãs de Palavra!

Livros (des)educam o seu olhar

 

 

 

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A VERDADE ABSOLUTA DO MUNDO

A verdade absoluta do mundo

Só existe uma verdade absoluta no mundo. E com ela, não adianta discutir, é uma verdade tirana. É a dona do mundo. Manda em tudo. Manda em todos (em nós e também em você). Não há como escapar. Quando ela diz não, acabou. Para sempre. Sem chances.

Mas não sejamos injustas, é uma verdade generosa. A cada dia, oferece um mundo novo para você.E também para as Irmãs de Palavra.

A verdade absoluta do mundo é a vida. Pura e simples. Num gole só. Afinal, sem ela o que é que há? (ninguém nunca voltou para nos contar!) Sem ela, não temos nada. No fundo, nós já sabemos disso. Senão, por que você acha que os mais de sete bilhões de humanos que giram pela Terra se preocupariam tanto em querer aproveitar a vida?

As Irmãs de Palavra inventaram um jeito de aproveitar melhor a vida. Criaram o clube do livro “AMIGOS DE PALAVRA”. Isso foi em 2015 (aqui em Londrina e também em Maringá). Desde esse tempo, os AMIGOS DE PALAVRA são um desses lugares ensolarados, que nos enchem de vida. Porque nos nutre, nos dá a chance de viver milhares de vidas em uma só, a cada nova história que embarcamos. A leitura que compartilhamos mês a mês, provoca fogos de artifício em nossas mentes. Nós pensamos juntos, um monte de coisas que, sozinhas, nunca imaginaríamos. Desperta um sentimento de pertencimento, nós somos agora A MÁFIA DA PALAVRA.Temos cafés, gorós literários, muitos livros e, acima de tudo, temos uns aos outros. E aprendemos tanto. A ouvir, a deixar preconceitos de lado, a sermos mais flexíveis e amáveis. Nós aprendemos a viver melhor! O clube do livro é um universo paralelo, uma jornada viva! Divertida. Daquelas urgentes. Que nos acende. Nós queremos mais, muito mais! Mais da vida, mais de nós mesmas.

Os AMIGOS DE PALAVRA de Londrina se reúnem todo segundo sábado do mês na Livrarias Curitiba do Shopping Catuaí, às 16h30. É só chegar, você está mais que convidado.

Também existem outros clubes compartilhando histórias na pequena Londres: Caixa de Pássaros, Leia Mulheres, clubes de leitura do Sesc Londrina, Clube do Livro na Acil, e outros mais, espalhados em bibliotecas, empresas e casas de quem ama lê. Em todos eles, mais vida espera você.

E, nunca se esqueça: “Toda história tem poder (a sua tem mais)”. Viva!

 

Beijo das Irmãs de Palavra!

A verdade absoluta do mundo

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